COP30 põe petróleo no centro do debate: impacto direto para regiões petroleiras

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Nascida na Amazónia equatoriana, cresci com uma vista que poucos escolheriam: um poço de petróleo em frente a minha casa e chamas permanentes no horizonte. Hoje, a minha história é relevante porque uma vitória judicial não acabou com as labaredas — e a persistência dessas emissões põe em risco saúde pública, ecossistemas e compromissos climáticos que discutimos em cimeiras como a COP30.

Uma infância marcada pela poluição

Desde cedo aprendi a distinguir o cheiro da floresta do cheiro do fumo. Onde outras crianças viam rios e árvores, eu via torres e chaminés a queimar gás. O odor de plástico a arder tornou-se rotina, até perceber que não se tratava de normalidade, mas de contaminação.

Além da paisagem alterada, há efeitos tangíveis: animais empobrecidos, áreas de vegetação degradadas e água com sinais de contaminação. E, no seio da comunidade, aumentaram doenças respiratórias e outras condições de saúde associadas à exposição contínua a fumos e poluentes.

Da mobilização local ao tribunal

Aos 11 anos participei numa visita organizada por grupos locais para documentar os danos das operações petrolíferas. Foi ali, ao lado de queimadores que libertam grandes quantidades de metano e outros gases de efeito estufa, que decidi agir.

Com outras jovens, e com o apoio de organizações como a UDAPT e o coletivo Guerreiras pela Amazónia, levámos o Estado equatoriano aos tribunais para exigir a remoção dos queimadores de gás e a reparação dos danos. O tribunal deu-nos razão — um passo legal crucial que, na prática, não foi totalmente cumprido.

Ter uma sentença não equivaleu a ver as chamas apagadas. Atualmente muitos queimadores continuam ativos, evidenciando a lacuna entre decisão judicial e implementação.

Intimidação e riscos para quem denuncia

Proteger o ambiente sendo jovem e mulher tem um custo elevado. As denúncias atraem críticas e tentativas de desqualificação: somos acusadas de ser manipuladas ou de fazer cena. As autoridades, por vezes, recorrem a bloqueios e a presença policial para dificultar o acesso a reuniões e manifestações.

Em fevereiro de 2024 sofri um ataque contra a minha casa: um artefacto explosivo foi lançado à entrada. Havia um recado, que o fogo consumiu. A mensagem foi clara — tentaram silenciar-nos. Mesmo assim, continuámos a exercer pressão e a levar o problema a fóruns internacionais.

Por que isso importa agora

A presença contínua de queimadores tem impactos locais e globais. O metano e outros gases libertados intensificam o aquecimento e anulam esforços climáticos anunciados em conferências como a COP30. Além disso, a incapacidade do Estado de aplicar decisões judiciais põe em causa a protecção dos direitos humanos das populações afectadas.

  • Saúde pública: exposição crónica a fumos aumenta doenças respiratórias e outros problemas de saúde.
  • Clima: emissões de metano de queimadores amplificam o aquecimento a curto prazo.
  • Justiça e governança: sentenças sem cumprimento minam a confiança nas instituições.
  • Biodiversidade: fauna e flora perdem habitat e qualidade da água é comprometida.

Vozes muitas vezes silenciadas

Na Amazónia existem jovens — mestiças e indígenas — cujas histórias raramente chegam aos media. Formámo-nos em colectivos e aprendemos a transformar indignação em ação pacífica e organizada. A nossa nomeação como Guerreiras pela Amazónia simboliza essa resistência: não pedimos favores; exigimos cumprimento da lei e medidas concretas de proteção ambiental.

A participação em eventos internacionais tem um objetivo prático: lembrar governos que políticas climáticas não são retórica se, ao mesmo tempo, se permite que actividades poluidoras prossigam sem controle.

O caminho à frente

Recuperar áreas danificadas é possível e passa por reflorestamento, limpeza de rios e monitorização das operações petrolíferas. Iniciativas de cidadania, como a campanha de cartas promovida pela Amnistia Internacional — disponível em amnistia.pt — ajudam a pressionar autoridades e a dar visibilidade às nossas reivindicações.

Resistir exige coragem mas também estratégia. Construímos proteção coletiva quando denunciamos, quando formalizamos reclamações e quando levamos evidências a tribunais e fóruns internacionais. Cada ação fortalece a comunidade.

Enquanto houver atividades que degradam o território e ameaçam vidas humanas e não humanas, haverá quem lute por responsabilidade e reparação. A verdade que defendemos não é ideológica: é resultado de observação direta, de lares afectados e de decisões judiciárias que precisam de ser cumpridas.

Leonela Moncayo integra o grupo de jovens defensoras conhecido como Guerreiras pela Amazónia, que combate os impactos das queimas de gás no Equador e reivindica justiça ambiental e cumprimento das sentenças que protegem as comunidades.

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