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Depois de 16 anos de pressão cívica e dados técnicos, o projeto para reequilibrar as praias a sul da Figueira da Foz avançou para a etapa decisiva: o concurso público para o sistema de bypass foi incluído no Orçamento do Estado para 2026. A decisão chega no fim de um ciclo de desgaste costeiro, prejuízos económicos e alertas técnicos que pediam resposta imediata.
O problema começou na orla em 2010, quando o prolongamento do molhe norte do porto alterou a circulação natural de sedimentos ao longo da costa. Desde então, areias deixaram de seguir a corrente litoral para sul, e praias como Cabedelo, Cova-Gala e Leirosa foram perdendo largura ano após ano.
A consequência foi dupla: erosão progressiva das praias e agravamento das condições de entrada na barra, com um aumento de incidentes náuticos. A conhecida onda do Cabedelo — um ativo para o surf e para a economia local — também foi-se reduzindo, afetando a atratividade turística da região.
O que é a solução proposta
Os estudos técnicos, incluindo trabalho da Universidade de Aveiro, apontam para o sistema de bypass como a medida mais eficaz e economicamente viável. Em termos práticos, trata-se de aspirar a areia acumulada a norte do molhe e transferi‑la para as praias a sul através de tubagens, reconstituindo o transporte natural de sedimentos.
Esta técnica já é aplicada noutros países com sucesso, restaurando o aporte de areias sem as intervenções repetitivas de curto prazo que se mostraram dispendiosas e ineficazes.
O que mudou agora
Em novembro de 2025, a Assembleia da República aprovou, por consenso, a inclusão do procedimento concursal para o bypass no orçamento de 2026 — um passo que transforma anos de estudos e propostas em execução possível.
O grupo cívico SOS Cabedelo, liderado por Eurico Gonçalves e Miguel Figueira, esteve na origem da mobilização. Sem cargos oficiais, estes dois surfistas levaram a questão a conferências, ao estrangeiro para ver projetos semelhantes, a órgãos locais e nacionais, e às redações, sustentando o pedido com relatórios técnicos e medições sobre o impacto económico e ambiental.
| Item | Valor / Observação |
|---|---|
| Custo estimado da obra | ≈ 18 milhões de euros |
| Custo por m³ de areia transportada | ≈ 1,64 € |
| Área protegida em 30 anos | ≈ 110 hectares |
| Benefício económico estimado (30 anos) | 229 a 333 milhões de euros |
| Prazo de retorno do investimento | 7 a 10 anos |
Implicações práticas
A inclusão do concurso no orçamento implica que, se o calendário for cumprido, a obra poderá arrancar em sequência ao processo administrativo. Entre os efeitos esperados estão:
- Redução da necessidade de alimentações artificiais de praia frequentes e dispendiosas;
- Recuperação gradual das praias a sul e da forma da onda do Cabedelo, com impacto positivo no turismo e nas atividades desportivas;
- Melhoria da segurança de navegação na barra, com menor risco de acidentes;
- Ganho económico regional visível ao longo das próximas décadas.
Durante anos, a resposta do Estado passou por soluções temporárias e por adiamentos: relatórios, grupos de trabalho e aportes pontuais de areia que eram rapidamente levados pela maré. Esse padrão de intervenção foi, além de caro, incapaz de restaurar a dinâmica costeira alterada pelo molhe.
Os números técnicos ajudam a perceber o contraste: a construção do bypass representa um investimento único com payback relativamente curto, enquanto as alternativas de curto prazo implicaram gastos repetidos e perda contínua de território.
Perspetivas e próximos passos
O passo orçamental é o mais relevante desde 2010, mas ainda não garante conclusão imediata. Seguem-se fases administrativas — abertura do concurso, adjudicação e execução da obra — e cada etapa tem prazos e riscos próprios. A monitorização científica e a transparência do processo serão determinantes para que a solução cumpra o que promete.
Do ponto de vista cívico, o caso ilustra como iniciativas locais sustentadas por evidência técnica podem alterar prioridades públicas. A intervenção do partido que apresentou a proposta no parlamento funcionou aqui como ponte entre conhecimento técnico e decisão política.
As próximas estações meteorológicas e os invernos que se avizinham serão um teste: a erosão não vai interromper-se por decreto. Mas com o concurso aberto, há finalmente um roteiro para devolver areias às praias e reduzir o impacto socioeconómico que se acumulou durante mais de uma década.
Para as comunidades, para os praticantes de surf e para quem vive da costa, a vitória não é apenas simbólica: é a perspetiva de recuperar espaço físico, segurança e rendimento. Para aqueles que acompanharam o processo desde o início, ficará a sensação de que a persistência informada pode forçar mudanças quando a administração falha em agir a tempo.
O projeto segue agora para os trâmites finais. Se cumpridos os prazos previstos, dentro de alguns anos será possível ver as praias do sul da Figueira da Foz novamente mais largas — e muitos recordarão os anos de pressão e estudo que tornaram isso possível.












