IA para municípios transforma atas de reuniões em dados fáceis de consultar

Mostrar resumo Ocultar resumo

Uma equipa portuguesa lançou um conjunto de modelos de inteligência artificial que transforma atas de reuniões de câmaras municipais em informação organizada e de leitura rápida — ferramenta cuja versão de teste será pública a partir do dia 21, durante um workshop que aplicará a solução às atas de seis municípios parceiros. A novidade promete tornar decisões locais mais transparentes e facilitar o trabalho de jornalistas, investigadores e cidadãos.

O projeto, batizado Citilink, foi coordenado por Ricardo Campos, professor na Universidade da Beira Interior e investigador no INESC TEC, e envolve também a Universidade do Porto. Segundo o responsável, a ideia passa por usar técnicas de IA e de processamento de linguagem natural para extrair e estruturar informação das atas, em vez de deixá-las apenas como longos documentos difíceis de consultar.

O que os modelos fazem

Os oito modelos desenvolvidos pelo consórcio não cumprem uma única função: atuam em conjunto para automatizar várias tarefas que tornam as atas pesquisáveis e mais úteis no dia a dia.

  • Sumarização — condensam o conteúdo das atas em resumos concisos;
  • Identificação de temas — detectam os assuntos principais discutidos;
  • Associação a pelouros — vinculam automaticamente cada tema ao respetivo departamento municipal;
  • Reconhecimento de participantes — identificam vereadores, presidente e eventuais cidadãos intervenientes;
  • Destaque de posições — isolam as decisões ou as posições defendidas por cada eleito.

Em casos que envolvem cidadãos, os responsáveis garantem a aplicação de métodos de anonimização para proteger dados pessoais, reduzindo o risco de exposição indevida de informação sensível.

Por que importa agora

Atas públicas costumam ser extensas e pouco acessíveis para quem não acompanha as sessões regularmente. Ao transformar esse conteúdo em dados estruturados, o Citilink facilita a consulta de decisões, o acompanhamento de políticas locais e a verificação de atos públicos — algo relevante num momento em que há crescente interesse por transparência e por ferramentas que ajudem a monitorizar a gestão local.

Além do impacto direto nos cidadãos, a solução pode ampliar o alcance de redações locais com menos recursos, ao permitir que jornalistas encontrem mais facilmente pautas e trechos de interesse. Ricardo Campos aponta que isso pode ajudar títulos regionais a captar novos leitores e a diversificar fontes de receita.

Financiamento, equipa e calendário

O projeto recebeu 125 mil euros através de uma iniciativa da então Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), com apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR); os fundos já foram integralmente executados.

Oficialmente iniciado em abril de 2025, o programa teve inicialmente um horizonte de 12 meses que acabou por ser reduzido para 10. Nesse prazo compacto foi necessário recrutar bolseiros, treinar modelos, produzir investigação e submeter artigos científicos — um esforço que, segundo o coordenador, já alcançou os objetivos de pesquisa.

A equipa envolveu 24 pessoas (17 homens e sete mulheres) e contratou ainda dois consultores internacionais para apoiar o desenvolvimento técnico.

Possíveis desdobramentos e adoção

Ricardo Campos vê espaço para que entidades públicas relacionadas com a estratégia nacional de IA, como a Secretaria de Estado para a Digitalização e a Agência para a Reforma Tecnológica do Estado (ARTE), avaliem uma implementação mais ampla da tecnologia. A equipa também integra o consórcio do projeto Amália, o que facilita sinergias entre iniciativas de análise documental e governamental.

Segundo os promotores, o protótipo que será apresentado no workshop permitirá ao público testar como as atas dos seis municípios parceiros são processadas e visualizadas — um passo prático para avaliar utilidade, limitações e necessidades de ajuste antes de uma eventual adoção mais abrangente.

Se a ferramenta revelar-se eficaz em escala, poderá alterar a forma como as câmaras comunicam com a população e como os meios cobrem a política local: ao reduzir a barreira de acesso à informação, aumenta-se a capacidade de escrutínio e participação cívica.

Dê o seu feedback

Seja o primeiro a avaliar este post
ou deixe uma avaliação detalhada



Distrito Online é um meio independente. Apoie-nos adicionando-nos aos seus favoritos do Google News:

Publicar um comentário

Publicar um comentário