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O patriarca de Lisboa, Rui Valério, defendeu que o aumento de residentes estrangeiros em Portugal não ameaça a identidade cristã do país e criticou católicos que rejeitam imigrantes por contradizerem os ensinamentos de Cristo. A declaração ganha relevo num momento em que o país contabiliza 1,5 milhões de estrangeiros e debate políticas de acolhimento e integração.
Imigração não é, diz ele, sinónimo de perda de identidade
Em entrevista à agência Lusa, Rui Valério sublinhou que o catolicismo tem uma tendência universalista que facilita a convivência com diferenças culturais e religiosas. Para o responsável da arquidiocese, a presença de pessoas de diversas origens é uma realidade que exige resposta pastoral e social, não receio identitário.
Usando como exemplo a sua terra natal, Urqueira (Ourém), descreveu paróquias em que convivem fiéis com práticas e ritos distintos, e afirmou que essa pluralidade deveria ser acolhida. Ao mesmo tempo, recusou qualquer justificação para discursos intolerantes ou para a exploração laboral de imigrantes.
Problemas concretos: da documentação à pobreza
Valério apontou a legalização como a principal barreira enfrentada por muitos estrangeiros, que ficam vulneráveis e acabam por se misturar com segmentos da população nacional mais pobres — ambos atingidos pela subida do custo de vida.
O patriarca descreveu a chegada massiva de migrantes, no fim de 2024, como um fenómeno que surpreendeu as autoridades e a sociedade civil, deixando lacunas no acolhimento e na preparação comunitária.
- Impacto social: tensões locais quando o acolhimento é insuficiente.
- Direitos e trabalho: risco de exploração em setores pouco fiscalizados.
- Legalização: processo burocrático que impede o acesso a serviços básicos.
- Coexistência religiosa: sinais de respeito mútuo, segundo o patriarca.
O arcebispo também contou episódios em que crentes de outras religiões, ao participarem em ações solidárias na rua, pediram a sua bênção — um sinal, segundo ele, de convivência respeitosa. Mas advertiu que solidariedade prática exige políticas públicas eficazes, não apenas boa vontade.
Igreja, sinodalidade e obediência a Roma
Sobre o processo sinodal — consulta às bases da Igreja para debater temas controversos — Rui Valério afirmou que a diocese de Lisboa cumprirá as orientações do Papa e de Roma. Não entrou em pormenores sobre questões polémicas (celibato, ordenação de mulheres, papeis de divorciados), preferindo sublinhar a dimensão missionária da instituição.
Segundo o patriarca, a missão da Igreja não deve reduzir-se a reações políticas ou a alinhamentos ideológicos; a mensagem evangélica tem alcance «mais universal» e ultrapassa as divisões esquerda-direita.
Um alerta contra a cultura da guerra
Além de preocupações domésticas, Rui Valério dirigiu uma crítica severa a líderes internacionais que, na sua leitura, agem com maturidade insuficiente e alentam uma corrida ao armamento. Para ele, essa postura dificulta a construção de acordos e alimenta ciclos de violência.
O prelado afirmou concordar com as chamadas pontuadas pelo Papa a favor de uma paz desarmada, e advertiu que a lógica do «armar-se para travar o outro» acaba por tornar a guerra mais provável, não menos.
Ao relacionar a atual tensão geopolítica — incluindo a guerra na Ucrânia e os confrontos em outras regiões — com uma cultura política agressiva, Valério apelou à responsabilidade das sociedades para recuperarem tradições humanistas que preservem a paz.
O que está em jogo para os portugueses
- Coesão social: modelos de integração determinam se a diversidade gera conflito ou enriquecimento.
- Economia local: imigrantes são mão de obra essencial, mas expostos a condições precárias.
- Política pública: necessidade de agilizar processos de legalização e acolhimento.
- Vida religiosa: diálogo interconfessional e papel público da Igreja como mediadora.
Rui Valério concluiu pedindo um esforço coletivo: paróquias, poderes públicos e comunidades devem trabalhar para que a chegada de novos residentes não provoque exclusão, mas seja uma oportunidade de diálogo e de reforço dos valores que, segundo ele, permanecem no centro da vida portuguesa.












