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Com cheias que já provocaram 112 mortes, a prioridade imediata em Moçambique é salvar pessoas e garantir ajuda às populações afetadas — e a crítica central é que ações preventivas previstas desde agosto não foram colocadas em prática. O deputado Venâncio Mondlane acusa o Governo de falta de um plano operacional e pede mobilização rápida de meios de resgate e de assistência.
Em visita a um trecho da Estrada Nacional nº 1, cortado pelas inundações na região de Manhiça, no sul, Mondlane explicou que as intervenções têm de acompanhar as condições específicas de cada local e que, por isso, respostas distintas são necessárias para Maputo, Matola e outras áreas.
Socorro imediato versus planejamento antecipado
Segundo o deputado, as prioridades atuais são claras: o resgate de pessoas em perigo e a entrega de assistência humanitária a quem perdeu abrigo, bens ou acesso a serviços básicos. Essas ações, afirma, deveriam ter sido antecipadas com base em avisos técnicos divulgados meses antes.
Relatórios do Instituto Nacional de Meteorologia e da Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, mencionados por Mondlane, indicavam desde agosto que os solos ficariam saturados no último trimestre de 2025 e que haveria risco de cheias “muito acima do normal” entre janeiro e março de 2026 — informação que, segundo ele, não foi convertida em medidas concretas.
O que deveria ter sido feito — e não foi
O político listou várias ações que poderiam ter reduzido o impacto das inundações e aumentado a capacidade de resposta imediata. Entre elas estão:
- Evacuação preventiva de comunidades em áreas de risco;
- Deslocamento estratégico de meios de salvamento, como helicópteros e embarcações;
- Formação de estoques regionais de alimentos, medicamentos e artigos de primeira necessidade;
- Mobilização antecipada de profissionais de saúde, forças de segurança e voluntariado;
- Coordenação diplomática com países a montante para gerir descargas de barragens.
“O problema não foi a falta de informação, mas a ausência de um plano para usar essa informação”, disse Mondlane, resumindo a crítica central ao Executivo.
Coordenação internacional e riscos de barragens
Outra falha apontada é a escassa articulação com nações que ficam rio acima, em particular a África do Sul, onde algumas barragens já vinham operando quase no limite desde o final do verão. Mondlane afirmou que essa situação era pública e deveria ter sido objeto de diálogo prévio para reduzir o risco de descargas súbitas.
Sem esse alinhamento, descargas controladas ou imprevisíveis podem agravar cheias em áreas baixas, elevando a necessidade de respostas rápidas no terreno.
Dimensão estrutural: investimento e governança
Para além da falta de planeamento operacional, o deputado associou a vulnerabilidade do país a problemas de longo prazo. Entre as causas, citou o mau uso de recursos e desvios que teriam comprometido obras de mitigação e infraestruturas destinadas a reduzir o impacto de calamidades.
Segundo ele, o que faltou foi não apenas planejamento, mas também investimento consistente e transparente ao longo das últimas décadas — uma falha que, na sua avaliação, agravou o dano provocado pelas cheias.
Na semana passada, Mondlane afirmou ainda que as perdas humanas relacionadas às chuvas decorrem de “corrupção e governação falhada” e anunciou que sedes e delegações do seu partido vão servir temporariamente como pontos de acolhimento para vítimas.
Dados oficiais e próximas etapas
De acordo com o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), o número de mortos subiu para 112; três pessoas continuam desaparecidas e 99 estão feridas. Esses números reforçam a urgência de ações coordenadas de busca, socorro e recuperação.
Além da resposta imediata, especialistas e políticos têm chamado atenção para a necessidade de rever procedimentos de preparação e de fortalecer mecanismos de cooperação transfronteiriça — mudanças que podem reduzir danos em eventos climáticos extremos futuros.












