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O Serviço Nacional de Saúde pagou 627 milhões de euros por cirurgias realizadas fora do horário regular entre 2022 e o primeiro trimestre do ano passado — um aumento de 51% no período analisado —, segundo um relatório da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS). O crescimento deste custo levanta preocupações sobre a capacidade do SNS de atender à procura sem recorrer repetidamente a sessões extraordinárias.
Hospitais consultados pelo relatório justificam o recurso à chamada produção adicional sobretudo por dois factores: mais doentes a precisar de cirurgia e uma equipa insuficiente para cobrir a atividade dentro dos turnos normais. A IGAS identifica especialidades com maior peso nestes pagamentos e destaca implicações para o orçamento público e para a gestão das listas de espera.
O que o relatório revela
Os dados compilados pela IGAS e agora divulgados mostram uma dinâmica de custos que tem aumentado de forma rápida. A seguir, os pontos essenciais do levantamento:
- Custo total: 627 milhões de euros em produção adicional no período indicado.
- Variação: crescimento de 51% entre 2022 e o primeiro trimestre do ano passado.
- Especialidades mais afetadas: ortopedia e oftalmologia concentram a maior parte dos pagamentos.
- Motivos sinalizados pelos hospitais: aumento da procura por cirurgias e falta de recursos humanos para trabalhar dentro do horário regular.
Dados essenciais
| Período | Valor pago (euros) | Variação | Principais especialidades |
|---|---|---|---|
| 2022 — 1.º trimestre do ano seguinte | 627 000 000 | +51% | Ortopedia, Oftalmologia |
Consequências práticas
O recurso frequente a sessões extraordinárias tem efeitos diretos na gestão do SNS:
Orçamentais — pagamentos adicionais favorecem gastos correntes e podem limitar a margem para investimentos estruturais, como contratação e formação de profissionais.
Operacionais — depender de turnos extra não resolve a falta de profissionais em horários regulares e pode mascarar problemas de planeamento e organização dos blocos operatórios.
O que está em jogo para os utentes
A curto prazo, a produção adicional permite reduzir atrasos para alguns doentes. Mas, a médio e longo prazo, a solução pode não ser sustentável se os pagamentos continuarem a subir sem mudanças na capacidade do sistema.
Para os pacientes, isso significa que o acesso à cirurgia pode tornar-se mais dependente de soluções temporárias do que de aumentos permanentes de capacidade — com impacto potencial na equidade e na eficiência do SNS.
Próximos passos e perguntas em aberto
O relatório da IGAS sublinha a necessidade de analisar a sustentabilidade financeira desta prática e de avaliar medidas que reduzam a dependência de sessões extraordinárias. Entre as opções implicadas estão:
- Reforço de pessoal e estratégias de retenção;
- Melhoria na gestão dos blocos operatórios e escalas;
- Adoção de indicadores de transparência sobre custos e produtividade.
Fica por esclarecer, porém, em que prazo serão implementadas mudanças concretas e como se vai garantir que as decisões orçamentais conciliem o atendimento urgente com a sustentabilidade do sistema.
O relatório da IGAS, ao qual este jornal teve acesso, lança um sinal de alerta: sem intervenções estruturais, os pagamentos por produção adicional podem continuar a crescer, pressionando as contas públicas e perpetuando soluções temporárias para problemas persistentes no acesso a cirurgias.












