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Um estudo divulgado hoje por uma coligação de organizações ambientais questiona a solidez de grande parte das afirmações sobre os benefícios climáticos da inteligência artificial. O relatório surge na véspera da Cimeira de Impacto da IA em Nova Deli e alerta para consequências concretas nas políticas energéticas e nos planos de descarbonização das empresas.
As organizações responsáveis pelo relatório — entre as quais Beyond Fossil Fuels, Green Web Foundation e Friends of the Earth US — analisaram 154 declarações públicas que defendem que a IA generativa traria ganhos líquidos ao clima. O resultado: 74% dessas afirmações não têm apoio empírico robusto.
Segundo os autores, muitas mensagens em circulação favorecem interesses comerciais das tecnológicas e dos combustíveis fósseis, enquanto atenuam os impactos ambientais reais associados à operação de centros de dados.
Principais números
- 154 declarações avaliadas, incluindo comunicações de empresas como Google e Microsoft e de organismos como a AIE (Agência Internacional de Energia).
- 74% das afirmações sem base sólida.
- 26% fazem referência a artigos académicos publicados.
- 36% não citam qualquer evidência.
Entre as críticas diretas, o relatório aponta que a Google chegou a atribuir à IA uma potencial redução de 5% a 10% das emissões globais com base em extrapolações de uma consultora privada — métodos que os autores consideram insuficientes e não verificados. Além disso, parte dos benefícios reivindicados pela empresa estariam, na prática, ligados a investimentos em energia solar e não à IA em si.
A avaliação sobre a AIE também é severa: a agência teria apoiado conclusões favoráveis com modelos teóricos em vez de medições de campo, e em alguns estudos utilizou revisões técnicas feitas por especialistas com ligações a grandes tecnológicas, um ponto que o relatório qualifica como potencial conflito de interesses.
Quanto à Microsoft, os autores dizem que existem declarações sobre a capacitação de uma “força de trabalho sustentável” mediante IA generativa, mas sem dados verificáveis que quantifiquem cortes reais de emissões.
A análise não identificou “um único exemplo” em que sistemas generativos — citando casos como ChatGPT, Gemini ou Copilot — tenham resultado em reduções de emissões materiais e verificáveis. Os autores destacam ainda a diferença entre a IA generativa, com elevada pegada energética, e aplicações de IA mais tradicionais e menos intensivas em recursos, como modelos usados para prever padrões de vento.
O que isso significa na prática
As conclusões do estudo sugerem riscos claros para políticas públicas e investimentos privados:
- Políticas baseadas em estimativas não verificadas podem atrasar medidas reais de redução de emissões.
- Empresas e governos podem superestimar o papel da IA como solução climática e subestimar a necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis nos centros de dados.
- Falta de transparência e de dados medidos dificulta a responsabilização e a comparação entre alternativas tecnológicas.
O relatório foi liderado pelo analista de clima e energia Ketan Joshi. Em declarações aos autores, Joshi alertou que muitas promessas tecnológicas funcionam como um “cortina de fumaça” para a expansão contínua de infraestruturas que consomem carvão e gás.
Com a Cimeira de Impacto da IA prestes a começar, os autores pedem auditorias independentes, medições empíricas das emissões dos centros de dados e maior transparência sobre os dados por trás das estimativas divulgadas por empresas e instituições.
Em suma, o relatório não proíbe a possibilidade de benefícios climáticos vindos da IA, mas exige que essas alegações sejam sustentadas por evidências robustas e auditorias independentes antes de servirem de base para decisões públicas ou privadas.












