Mostrar resumo Ocultar resumo
Portugal viveu dois abalos em 24 horas: um de origem geológica, medido pelo IPMA em 4,1; outro, de natureza política, desenrolado no plenário da Assembleia. O que parecia um episódio pontual no terreno transformou-se num sintoma do estado atual do debate público — com consequências práticas para a confiança e a perceção sobre capacidade de governo.
O sismo físico foi breve e sem danos significativos. Já na sessão parlamentar, o que se viu foi uma sequência de atritos, interrupções e trocas de acusações que pouco acrescentaram às respostas esperadas pelos cidadãos.
Uma escala para o hemiciclo
Se houvesse um aparelho a registar a intensidade do ruído político, não faltariam níveis para classificar o que aconteceu: desde sinais mínimos de aborrecimento até à confusão total. Eis uma proposta de medição simbólica — a Escala de Turbilhão Retórico (ETR) — para ajudar a entender por que motivo alguns debates parecem mais espectáculo do que serviço público:
- ETR 1 — Murmúrio: reacções discretas, intervenções breves, nada que altere o ritmo da sessão.
- ETR 2 — Agitação leve: gestos de apoio, notas trocadas, interrupções pontuais e inofensivas.
- ETR 3 — Sobressalto técnico: citações oficiais, referências a relatórios, pequenos aplausos seletivos.
- ETR 4 — Clima audível: palavras de ordem, protestos em voz alta e sinais visíveis de contestação.
- ETR 5 — Confronto aberto: pedidos de defesa da honra, gritos, troca de olhares tensos e perda de compostura.
- ETR 6 — Intervenção da mesa: pedidos repetidos de ordem, chamadas à calma e sanções procedimentais.
- ETR 7 — Colapso comunicacional: microfones cortados, objetos a voar, cobertura mediática imediata e explosão nas redes sociais.
Durante o debate, a intensidade oscilou entre os níveis médios e os mais elevados. O resultado foi um espetáculo que ocupou público e timeline, mas que não se traduziu em soluções concretas nem em esclarecimentos que respondessem às dúvidas da população.
Impactos práticos
A confusão em plenário tem efeitos tangíveis. Primeiro, reduz a qualidade da informação que chega ao eleitor — notas fortes e frases de efeito substituem dados e propostas. Depois, alimenta a narrativa de que a política está mais preocupada em marcar pontos do que em governar.
Nas redes sociais, a reação é rápida: partilhas, hashtags e memes amplificam a imagem do embate, muitas vezes sem contexto. Nos media, a manchete tende a priorizar o conflito — o que aumenta a sensação de tensão instalada. Para quem procura respostas sobre medidas públicas, isto é dissuasor.
Medir a política pela energia dos confrontos é um erro óbvio. Assim como um sismo se avalia pela energia libertada e pelos efeitos concretos, o desempenho parlamentar devia ser avaliado pela qualidade das propostas e pelo impacto esperado dessas medidas. A diferença é decisiva: um abalo físico não faz necessariamente uma sociedade avançar; uma sessão parlamentar ruidosa também não.
Num momento em que o país enfrenta desafios urgentes — económicos, sociais e ambientais — a prioridade deveria ser recuperar o espaço para debates mais substanciais e menos performáticos. Isso interessa hoje porque a próxima solução útil pode estar a um discurso de distância, não a um episódio de maior audiência.
O sinal de alarme não é apenas que se grite mais alto; é que se ouve menos quem apresenta caminhos. E isso deveria preocupar tanto o Parlamento quanto quem o observa.












