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Neste 8 de Março, centenas de manifestações em Portugal e no resto do mundo voltaram a lembrar que avanços não significam igualdade: leis e práticas continuam a deixar muitas mulheres em risco. A data serviu para exigir respostas imediatas — desde proteção contra a violência até mudanças nas leis que regulam trabalho, família e propriedade.
Um dia antes de deixar oficialmente o cargo, o Presidente da República observou que as mulheres «vivem mais, estudam mais, trabalham mais e cuidam mais», mas enfrentam ainda obstáculos importantes para o pleno exercício dos seus direitos. A mensagem de transição na Presidência e as intervenções públicas de líderes políticos marcaram a agenda do Dia Internacional da Mulher em Portugal.
O Presidente eleito voltou a colocar a desigualdade de género entre as prioridades e destacou, nas redes sociais, a urgência de combater situações que mantêm tantas mulheres em condição de insegurança dentro das próprias casas. Para ele, uma sociedade justa mede-se também pelas oportunidades e pela segurança que garante às mulheres.
Manifestações e reivindicações
Em Lisboa, a marcha que partiu da Avenida da Liberdade e seguiu até à zona ribeirinha reuniu milhares de pessoas. Organizações, partidos e movimentos sociais sublinharam que, apesar de conquistas históricas, persistem práticas e estruturas que penalizam sobretudo as mulheres.
O Movimento Democrático de Mulheres organizou ações em 17 cidades para denunciar questões concretas: salários baixos, degradação de serviços públicos, e a exigência de medidas urgentes para a reconstrução de concelhos afetados por intempéries recentes.
Representantes de vários partidos afirmaram que a luta pela igualdade é transversal: não é apenas uma causa feminina, mas um objetivo da democracia. Em intervenções públicas repetiu-se a preocupação com o peso do machismo nas instituições e com a distribuição desigual do poder e dos rendimentos.
Portugal e o fenómeno global
As marchas sucederam-se também noutros países: de Kiev — onde a mobilização ocorreu mesmo em tempo de guerra — a capitais europeias e metrópoles em África, Ásia e América Latina. Em muitos locais, os protestos combinaram pedidos por igualdade com críticas à violência política, ao avanço da extrema‑direita e a crises internacionais como os conflitos no Médio Oriente.
O secretário‑geral das Nações Unidas, em artigo publicado neste domingo, recordou que nenhum país eliminou por completo as diferenças legais entre homens e mulheres. Segundo dados da ONU, as mulheres ainda dispõem, globalmente, de apenas cerca de 64% dos direitos legais que são reconhecidos aos homens.
- 709 mulheres assassinadas em Portugal entre 2002 e 2025, segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas.
- 939 vítimas de tentativa de homicídio registadas no mesmo período; 22 femicídios sinalizados no último ano.
- Globalmente, mais de metade dos países não define a violação com base no consentimento (54%).
- Em 72% dos países continuam permitidas práticas como o casamento infantil; 44% não têm legislação garantido salário igual por trabalho de igual valor.
- Estimativa de que, em 2024, cerca de 50.000 mulheres e meninas tenham sido mortas por parceiros íntimos ou familiares.
O que está em jogo
As estatísticas expõem consequências concretas: lacunas legais traduzem‑se em menos proteção policial e judicial, barreiras económicas agravam a dependência financeira e a falta de serviços públicos adequados dificulta a recuperação de vítimas. Por isso, as exigências nas ruas combinaram pedidos de reforma legislativa com demandas por investimento em apoio social e serviços de proteção.
À medida que a discussão pública avança, surgem também chamadas para medidas imediatas — melhor formação das forças de segurança, linhas de apoio mais eficazes, políticas laborais que favoreçam a autonomia económica e programas de prevenção que alcancem escolas e comunidades.
O tema global deste ano, «Direitos. Justiça. Ação. Para todas as mulheres e raparigas», colocou o foco na necessidade de agir com rapidez e concretude. Para ativistas e autoridades, a prioridade não é apenas mudar palavras nas leis, mas garantir sua aplicação e ampliar redes de proteção.
Num país que regista tanto progresso quanto desafios persistentes, as cerimónias e marchas de hoje reiteraram um aviso: o calendário simbólico do 8 de Março continua a ser uma plataforma para cobrar políticas públicas e monitorar a implementação de direitos.
Para quem acompanha esses debates, as próximas semanas serão importantes: as propostas legislativas, os planos de governo e a resposta das instituições de segurança social e judicial indicarão se o dia ficará apenas nas ruas ou se terá reflexos reais nas condições de vida das mulheres.












