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As depressões Kristin, Leonardo e Marta, que causaram pelo menos 18 mortes entre janeiro e fevereiro, voltaram a expor vulnerabilidades nas cidades portuguesas — do planeamento à construção. Especialistas afirmam que os eventos climáticos revelam a necessidade de repensar materiais, drenagem e a integração entre espaço urbano e ecossistemas.
Paula Teles, presidente do Instituto de Cidades e Vilas com Mobilidade (ICVM), defende uma mudança de paradigma: as cidades devem privilegiar elementos que permitam maior infiltração da água e fortalecer a coexistência com a estrutura verde e a estrutura azul, respeitando leitos, declives e componentes naturais do território.
Para Teles, as imagens de estragos e desalojados não podem ser tratadas apenas como episódios isolados. “Há limites físicos que não se podem ignorar: construir sem considerar rios, solos e inclinações é apostar na fragilidade”, diz a especialista, sublinhando que decisões rápidas e abrangentes são necessárias — inclusive sobre a eventual demolição de imóveis que se mostram perigosos.
O que precisa mudar na prática
A avaliação técnica aponta para ajustes concretos, que vão desde a escolha de materiais até reorganização dos modos de transporte. Entre as medidas mais indicadas estão:
- Materiais permeáveis em espaços públicos e áreas de estacionamento para reduzir escoamento superficial.
- Planeamento que incorpore retenção de águas e zonas de escoamento natural, em vez de apenas canalizações rígidas.
- Proteção e recuperação de leitos fluviais e encostas, respeitando o ecossistema local.
- Reforço da fiscalização e revisão de regimes de licenciamento, para evitar construções de baixo custo e baixa resistência.
- Investimento em transportes coletivos e em infraestruturas ferroviárias, com parques de interface e estações seguras e bem projetadas.
- Projetos elaborados por equipas multidisciplinares — engenheiros, arquitetos e especialistas ambientais — para aumentar a resiliência dos edifícios.
A especialista chama atenção para um problema recorrente: o crescente número de intervenções urbanísticas que escapam a processos de licenciamento formais tem incentivado soluções mais baratas e menos duradouras. O resultado é uma paisagem construída mais vulnerável quando a natureza demonstra maior intensidade.
Infraestruturas e mobilidade: ligação direta com saúde pública
Além das questões de solo e construção, Teles destaca a relação entre mobilidade e qualidade de vida. Cidades com maior nível de deslocamentos a pé tendem a apresentar melhores indicadores de saúde pública, observa ela, defendendo políticas que resgatem espaço urbano do automóvel e promovam modos de deslocação descarbonizados.
Para isso são necessárias estratégias amplas: planeamento de mobilidade integrado, políticas públicas de transporte coletivo robustas e intervenções rápidas que cruzem conhecimentos técnicos e ambientais. “Não faz sentido que cada área seja resolvida isoladamente; há que articular competências e agir com urgência”, afirma.
Agenda e articulação ibérica
Para provocar debate e partilha de práticas, a Rede de Cidades e Vilas que Caminham organiza a quarta edição do Congresso Nacional sobre mobilidade nos dias 26 e 27 de março, na Fundação Manuel António da Mota, no Porto. O encontro reunirá autoridades locais e nacionais e representantes de uma rede que já integra cerca de 50 cidades portuguesas e 150 espanholas.
O objetivo é discutir respostas políticas, trocas de experiência e soluções que coloquem o peão e o transporte coletivo no centro do planeamento urbano — numa abordagem que, segundo organizadores e especialistas, deve ganhar urgência face à maior frequência de eventos extremos.
As últimas tempestades servem, portanto, como alerta prático: sem alterações nos métodos de planeamento, materiais e na governação das obras, as cidades continuarão expostas. A aposta recomendada por técnicos passa por medidas imediatas e por uma visão integrada, que una clima, mobilidade, saúde pública e planeamento territorial.












