CMB vai adquirir a Quinta Braamcamp

 

A Câmara Municipal do Barreiro aprovou, ontem, dia 4 de novembro, em reunião privada, a compra da Quinta do Braamcamp. O Presidente Autarquia, Carlos Humberto de Carvalho, anunciou, após a sessão de Câmara, à comunicação social, a aprovação desta deliberação que constitui um passo importante na estratégia de requalificação da zona ribeirinha do Concelho e de reapropriação dos rios por parte da população. Foi aprovada ainda a aquisição de empréstimo cuja verba comtempla, não só a aquisição da Quinta, como também a aquisição de uma Muleta do Tejo – construindo-a de raiz – e a intervenção com vista à recuperação, faseada, da zona ribeirinha, desde o Braamcamp até à Avenida de Sapadores, “complementando com fundos comunitários que já temos pensados para utilizar neste território”, referiu o Autarca.

Esta medida “tem uma importância muito grande numa estratégia que temos vindo a prosseguir e a concretizar no sentido de voltar o Concelho para os rios e aproximar a população da zona ribeirinha, de modo a aproveitarmos melhor as potencialidades do Tejo e do Coina, no sentido de valorizarmos, do ponto de vista material e imaterial, este território entre o Bico do Mexilhoeiro e Alburrica e a Avenida dos Sapadores. É esta a visão integrada que temos para aquele território e estamos a dar mais um passo muito significativo”, referiu Carlos Humberto de Carvalho.

A recuperação do território será associada à aquisição da embarcação tradicional do Tejo, a Muleta, para usufruto da população. “Não existe nenhuma no País, tendo desaparecido há mais de um século”, salientou Carlos Humberto de Carvalho.

Após a formalização da aquisição da propriedade, com cerca de 21 hectares, “é nossa intenção em breve intervir no território”, numa primeira fase deitando abaixo os muros e limpando a área”, referiu o Autarca. “Além de derrubar os muros, limpar o território, temos intenção de recuperar o moinho, limpar a caldeira, fazer alguns percursos e a estrada do Clube Naval até ao Bico do Mexilhoeiro”, referiu o Presidente da CMB.

“Estamos a adquirir este  território, fundamentalmente, para usufruto da população do Barreiro, e da região, como importante espaço público”, salientou Carlos Humberto de Carvalho.

 

De salientar que esta decisão da Câmara ainda está sujeita à aprovação por parte da Assembleia Municipal, cuja reunião decorrerá ainda este mês.

 

 

Quinta Braamcamp

 

Único complexo rural em plena cidade do Barreiro, cuja atividade cessou recentemente. Era composto inicialmente por casa de habitação, armazéns, moinho de vento e de maré e terras de cultivo.

É atualmente propriedade do Millenium BCP, após processo de insolvência da Sociedade Nacional de Cortiças. Conserva ainda a antiga casa solarenga (século XIX), instalações agrícolas e um moinho de maré.

 

De acordo com o Guia Documental da Casa Reynolds / Sociedade Nacional de Cortiças, editado pelo Espaço Memória – Arquivo Municipal do Barreiro | CMB, “A história do fabrico de cortiça na Quinta Braamcamp iniciou-se em 1882 quando os irmãos Reynolds arrendaram a Quinta Braamcamp de George Abraham Wheelhouse e sua mulher”.

“Em Março de 1883 Tomás Reynolds já vivia na Quinta Braamcamp e nesta data já era transformada cortiça na fábrica instalada na quinta. A maquinaria importada da Grã-Bretanha (da Baerlein e c.º em Manchester, que custou cerca de 123 mil libras), como caldeiras e bombas para o fabrico de pranchas, só chegou ao Barreiro no final de 1884, quando a fábrica está em plena laboração, inclusive com horário nocturno”.

 

O texto da deliberação aprovada em reunião privada faz uma referência à obra “O Primo Basílio” de Eça de Queirós que descreve o local:

Comecemos pelo Primo Basílio.

Quando Sebastião, numa quente manhã de verão de finais do século XIX (por volta de 1878), acompanhou Jorge ao Barreiro e ao transporte que o levaria ao Alentejo, em trabalho, de visita às minas, foi junto a Alburrica que ambos desceram do vapor, fazendo a pé, pelo areal, o caminho até à Estação Ferroviária do Barreiro, início da Linha do Alentejo.

Ambos viram o conjunto moageiro de Alburrica, a praia, a Quinta do Braamcamp, o moinho de vento gigante do Barão do Sobral.

Ambos, seguramente, comentaram a beleza do local, o início da outra banda, a imponência dos moinhos, o desconforto da ligação entre o vapor e o comboio. (…)

O texto da deliberação remete para a atualidade: No coração deste território ficam os 21 hectares da Quinta do Braamcamp, hoje propriedade do Millennium BCP.

Um território que integra um moinho de maré e respetivo sistema de caldeiras, uma quinta e o espaço industrial da, hoje extinta, Sociedade Nacional de Cortiças.

Delimitado a norte pelo Rio Tejo, a poente pelo Bico do Mexilhoeiro, a nascente pela Escola Secundária Alfredo da Silva, e a sul pelas caldeiras dos moinhos Pequeno e Grande, e pela praia de Alburrica.

 

Estratégia

 

A estratégia para o território é fundamentada na deliberação:

A aposta na fruição das frentes ribeirinhas, enquanto fruição das próprias bacias dos rios Tejo e Coina, tem sido entre nós assegurada pelo Varino Pestarola.

Com bastantes anos de navegação, a embarcação propriedade do Município do Barreiro consome atualmente um elevado volume de investimento anual na sua manutenção, visando garantir as necessárias condições de segurança.

A vontade de encontrar uma solução levou-nos, naturalmente, de encontro à Muleta do Tejo.

A muleta, uma embarcação de características muito especiais, colhe referências desde o séc. XVI.

Possante e de aspeto bélico, devido à sua proa arrufada e cravada de espigões de ferro, a Muleta pescava fora da barra, de través e com artes de arrastar.

Neste contexto, mercê da sua estrutura, a Muleta representava uma imagem terrível para as embarcações de piratas argelinos que com ela se cruzavam.

A muleta desapareceu em finais do séc. XIX, mas marcou de tal forma as gentes e a vida barreirense que foi incluída na sua heráldica.

A possibilidade de adquirir uma Muleta – construindo-a de raiz – apta a permitir uma utilização equivalente à que hoje é dada ao Varino Pestarola, é também a possibilidade de reconstituir uma imagem desaparecida dos nossos rios há mais de cem anos.

É, objetivamente, a possibilidade de recuperar uma memória que nenhum de nós possui já, reintroduzido no Tejo e no Coina uma embarcação tradicional que tem merecido, nos meios especializados em Portugal e no estrangeiro, uma especial atenção. (…)

 

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