Carlos Paixão não é um homem de poucos projetos. Nem um homem de poucos sonhos, podendo-se, inclusivamente, afirmar que o excerto da Pedra Filosofal “sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança” assenta-lhe como uma luva.

Define-se como “um empresário puro e duro”, mas o brilho nos olhos com que fala de desporto, deixa transparecer que a Paixão que tem no nome está também, completamente, presente na hora de arregaçar as mangas, sonhar e concretizar.

Em exclusivo ao Distritonline, o diretor geral da MONDO, uma empresa de infraestruturas desportivas, explicou o que o levou a organizar esta quinta-feira o Meeting Desporto de Alcochete, a paixão pela vila, a relação que tem com o poder local e porque é que considera que os atletas portugueses são iguais aos homens dos Descobrimentos.

 

Distritonline [DO]: Como é que surgiu a ideia de organizar o Meeting Desporto de Alcochete?

Carlos Paixão [CP]: A ideia nasceu porque passo a vida a sonhar e este era um sonho que trazia comigo há vários anos, que foi ganhando consistência à medida que me fui apercebendo que havia espaço para torná-lo real. Para mim, este Meeting tem uma particularidade interessantíssima não tem um fio condutor, apesar de muita gente ter apertado comigo para criá-lo, mas sempre tive noção que o desporto é uma área demasiado vasta que não se compadece com a criação de um fio condutor. Se limitássemos a iniciativa ao tema das infraestruturas, que é a nossa área de atuação, tornávamos o Meeting extremamente limitativo.

DO: E qual foi o motivo que o levou a concretizar esse sonho em Alcochete?

 CP: Sou um empresário puro e duro, queria fazer um projeto bonito num local bonito e a escolha por Alcochete foi imediata. Descobri Alcochete há dez anos e considero esta vila uma coisa do outro mundo. Recentemente fiz uma loucura ainda maior e adquiri o espaço, para mim, mais bonito de Alcochete, o atual Clube Náutico de Alfoz, que, felizmente, permite-me organizar um evento deste tipo com qualidade.

DO: Acredita que estes eventos podem potenciar a vila a nível económico, mas também turístico?

CP: Claro que sim, não tenho dúvidas nenhumas sobre isso, acredito que a realização destes eventos que possibilita o desenvolvimento de uma cidade. No entanto, também não tenho dúvidas que o poder local tem de, rapidamente, entender que deve estar ao lado dos empresários e envolvido na criação destes projetos, independentemente das cores políticas.

DO: A que é que se deve o afastamento do poder local desta iniciativa?

CP: É simples, penso que o poder local em determinado momento considerou que eu poderia querer abraçar a política, mas, ao contrário do que julgam, eu não quero política, até porque a política não dinheiro para pagar-me (risos). A minha política é esta, a política do trabalho e da criação de projetos, felizmente tenho feito muitos. Por outro lado, deve-se a alguma falta de visão. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que com dinheiro qualquer um faz, neste momento ser empresário é muito mais duro do que há alguns anos atrás.

DO: Sente que o poder local está, de certo modo, de costas voltadas para o desporto?

CP: Eu acho que não, penso é que gerimos mal o desporto, nós, lastimavelmente, em Portugal chamamos ao desporto futebol. Mas se as pessoas quiserem, finalmente, ser sérias neste País têm de reconhecer que os grandes resultados não são no futebol, os grandes descalabros são no futebol, os grandes resultados são no judo, no atletismo, etc. Com as condições para a prática desportiva que existem em Portugal, quando comparadas com os outros países, temos de concluir que qualquer atleta português que consiga qualificar-se para os campeonatos europeus é um, verdadeiro, herói.

DO: Como é que justifica que existam tantos campeões em diversas modalidades no nosso País, apesar de as infraestruturas de treino serem, por exemplo, incomparáveis às do Complexo Desportivo de Alto Rendimento espanhol apresentado, no Meeting, pelo arquiteto espanhol Joan Sauqué I Brines?

CP: Basta ver a nossa história e a nossa grandiosidade, eramos pequeninos mas tínhamos o mundo na mão. E, todos estes atletas que se qualificam são, exatamente, iguais aos homens dos Descobrimentos. Eu fui judoca de alta competição, competi nos Campeonatos da Europa e nos Campeonatos do Mundo e, por isso, conheço bem essa realidade. Nós, na altura, íamos para os campeonatos de Volkswagen, enquanto os atletas dos outros países iam de avião, e, ainda assim, conseguíamos qualificar-nos. Quanto ao Centro de Alto Rendimento que foi apresentado pelo arquiteto Joan Brines, infelizmente, creio que nem nos próximos cem anos vamos ter um semelhante em Portugal.

DO: Como é que se deu a escolha dos preletores?

CP: Deu-se com algum carinho e cuidado, trabalhando em equipa. Como nós não tínhamos um fio condutor, procurámos trazer preletores que, de algum modo, abordassem os temas que pretendíamos focar. Todos os preletores são pessoas de referência nas áreas em que trabalham e, por isso, partilharam connosco experiências e percursos muito interessantes. Penso que, a relação de partilha é a única que pode salvar este País.

DO: Pretende realizar novos Meetings de desporto?

CP: Sim, para o ano quero repetir o Meeting de Alcochete e posso adiantar, em primeira mão, que já me foram feitos mais três convites, por três camaras municipais, para realizar estas iniciativas noutras cidades, no Norte, no Alentejo e em Loulé, que no próximo ano será Cidade Europeia do Desporto. Para mim, estes convites simbolizam que estamos certos, apesar de a Câmara onde eu vivo e onde eu pago os meus impostos e, essencialmente, onde a MONDO paga os seus impostos, não nos compreender nem apoiar, rigorosamente, em nada.

DO: Qual é o balanço que faz da iniciativa?

CP: Eu estou felicíssimo. Conseguimos juntar 280 pessoas no Meeting a uma quinta-feira, neste caso acho que os números falam por si.

DO: De onde é que surgiu a paixão pelo mundo do desporto?

CP: Não sei de onde é que surgiu, mas sei que se manifestou muito cedo, com muita força. No outro dia, dei por mim a pensar na minha vida, aos 58 anos, e concluí, facilmente, que toda a minha vida foi desporto, desde miúdo, fui atleta, empresário de desporto, sempre trabalhei neste mundo e foi, provavelmente, por isso que senti que era necessário dar este contributo sério às infraestruturas.

DO: Para quem não conhece a MONDO, qual é a vossa principal área de atuação?

CP: A nossa grande área de atuação são as infraestruturas desportivas, nomeadamente relvados e pistas de atletismo, mas também obras de grande valor arquitetónico, como o Pavilhão Arena de Luanda, que recebeu o último Mundial de Hóquei Patins.  Acredito, sinceramente, que o nosso êxito em Portugal passa pela forma com que estamos no mercado, com transparência e verdade, e pela forma como enfrentamos os desafios.

DO: A falta de recursos económicos em Portugal tem sido um obstáculo à expansão nacional da empresa?

CP: Não. Felizmente continuamos cheios de trabalho no nosso País.

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