“Jaula de Ferro – A prisão económica da maioria” é o novo livro de Alcídio Torres

No dia 11 de Julho, às 18h30, na Escola Profissional do Montijo, Alcídio Torres apresentará o seu novo livro: “Jaula de Ferro – A prisão económica da maioria”.

A obra analisa com algum pormenor as crises económicas, distinguindo as cises cíclicas das sistémicas, projecta as consequências dessas crises para a vida de milhões de pessoas e analisa a sua verdadeira origem.

Alcídio Torres faz uma compilação única em Portugal das dívidas públicas desde 1867 (Monarquia Constitucional) até ao ano de 2018, além de percorrer os meandros da última crise em Portugal e os efeitos que as políticas austeritária tiveram sobre os portugueses.

O nosso jornal colocou algumas questões ao autor.

DistritOnline – Como vê o período da última crise em Portugal?

Alcídio Torres– As elites políticas tomam o poder político, em nome, e ao serviço de interesses de classe bem determinados e, por isso, põem as políticas orçamentais, monetárias e cambiais às ordens das corporações e do capital financeiro. Foi o que aconteceu na crise de 2007/2008.

A austeridade passou a ser uma crença, um fundamentalismo, como tantos outros. Uns fundamentalistas atacam e matam as pessoas em pleno espaço público, atirando, à queima-roupa, sobre cidadãos indiscriminados, ou preparando atentados terroristas de toda a espécie. Há, porém, o fundamentalismo alicerçado na ordem e na lei, apoiado por uma máquina burocrática, e por governos que justificam a fome, a miséria e a morte em nome das contas certas, em nome do rigor orçamental. Uns matam à queima roupa, outros vão matando “delicadamente”, em nome do interesse nacional. Há, ainda, o fundamentalismo das grandes corporações económicas e financeiras, que empobrecem e matam silenciosamente milhões de pessoas, na forca do desemprego e dos baixos salários.

DistritOnline – Fala-se muito em neoliberalismo. Como fundamenta esta nova ideologia?

Alcídio Torres– No campo das ideias, o neoliberalismo funciona como uma fábrica de pessoas, criando sujeitos que devem pensar como empresas em competição, e cujo horizonte tem em vista o seu desenvolvimento pessoal, encarando os outros sujeitos como competidores ou concorrentes que é preciso superar. O neoliberalismo fomenta a preocupação pela concorrência entre as pessoas, com vista a exaltar a figura do vencedor. O herói, o mais adaptado, é aquele que administra a sua vida da forma mais produtiva. Os programas de segurança e assistência social do Estado Social são vistos como elementos atrapalhadores do processo. A verdadeira crítica dos neoliberais ao “Estado de bem-estar social” não se centra nos custos financeiros, nem da degradação ética e social na prestação dos serviços. O que criticam no Estado é o incitamento à preguiça, ao oferecer algum nível de segurança, pois os indivíduos seriam movidos, somente, pelo interesse próprio. Sem o medo, a insegurança e a insatisfação, os sujeitos tenderiam ao pecado do ócio.

DistritOnline –  Tem um capítulo inteiro sobre as crises. Este é um tema ainda mal aprofundado?

Alcídio Torres – No actual contexto de crises do sistema capitalista, cada vez mais prolongadas no tempo, a disciplina do capital foi mantida pela intervenção do Estado na economia, nomeadamente, com a salvação de grande parte do capital financeiro (bancos) na crise de 2007/2008.

Para salvar o capital financeiro da sua ganância e irresponsabilidade social ou, mais cientificamente, da sua missão para a obtenção da maior taxa de lucro possível, os Estados socorreram-se de políticas de austeridade, necessárias à gestão do capital financeiro.

Na actual crise, não foram as dívidas que provocaram a crise, mas a crise que originou as dívidas. Antes da crise, Portugal tinha uma dívida correspondente a 69% do PIB. Em 2014, essa dívida já estava em 130% do PIB.

DistritOnline – Fala-se de muitas causas das crises, mas do seu ponto de vista elas têm uma origem em nada coincidente com o que nos têm vendido sobre o que lhe deu origem?

Alcídio Torres – Na verdade, a origem da crise está na violenta contradição entre o carácter social da produção e a apropriação privada capitalista dessa mesma produção. No modo de produção actual, o aparecimento de crises tem origem na divergência entre as condições de produção e as de realização. Ou seja, é a contradição antagónica entre o carácter social da produção e a sua apropriação privada que gera as crises. O capitalismo produz uma quantidade de meios de consumo excedentária face à capacidade de poder de compra da maioria da população. Quando a oferta é superior à procura o capitalista não consegue reaver as suas margens de lucro, uma despedem, outros são obrigados a reduzir substancialmente a sua capacidade de produção, o que leva ao desemprego e à continuada incapacidade de consumo das grandes massas. É aí que entronca as crises.

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