Consumismo desenfreado ou Sustentabilidade?
Lá fora, oiço o som característico da flauta do amolador. Imediatamente, vêm-me à cabeça memórias de infância, de quando brincava na rua e os via passar de bicicleta anunciando a sua chegada com aquela sequência crescente e decrescente de notas. Hoje, ao ouvir este som sem estar à espera (pois é já coisa rara), sorrio. E de repente, dou por mim a pensar mais uma vez, que certas coisas do antigamente nunca deveriam deixar de existir. Hoje, a faca que já não corta vai para o lixo e é substituída por outra qualquer. O mesmo acontece com os electrodomésticos avariados, com o sofá cuja pele gretou ou com as calças que rasgaram “entre-pernas”. Vai tudo para o lixo e é facilmente substituído. Não admira que as relações humanas também fiquem um pouco descartáveis, neste mundo em que tudo parece ter um prazo de validade muito curto. No momento em que uma coisa deixa de ser perfeita, descarta-se e arranja-se outra nova.
Para além do evidente problema que resulta da acumulação de lixo ad eternum, há outra coisa que me inquieta. Num passado relativamente recente, toda a gente sabia fazer pelo menos o básico de tudo. Para qualquer homem era natural saber algo de mecânica automóvel, que dominasse o ofício de reparar alguns electrodomésticos e os estores das janelas, bem como ter pequenas noções de carpintaria e pedraria (rebocos, retoques simples nas rachas das paredes, pintura de paredes e tectos). Qualquer mulher “que se prezasse” sabia cozer botões, fazer bainhas, fazer camisolas e botinhas em tricot (prendas habituais nos natais e aniversários da criançada), “virar um colarinho” a uma camisa “porque do outro lado ainda está bom”, remendar uma peça de roupa (muitas vezes utilizando máquinas de costura a pedal). Também era muito comum quase toda a gente ter um pequeno galinheiro, criação de coelhos ou uma pequena horta perto da sua casa (até na cidade); no campo, havia inclusivamente o hábito de criar porcos, ovelhas, cabras e vacas (fontes de carne, leite e derivados). Logicamente, estas pessoas sabiam pelo menos o básico de agro-pecuária. E, mais importante do que o conhecimento acumulado, este era transmitido às gerações futuras! De uma forma que acentuava as desigualdades de género, pois havia tarefas “dos homens” e outras que eram “coisas de senhoras”, mas a verdade é que um casal heterossexual, quando casava e partilhava casa, tinha um certo número de competências básicas impressionante e que lhes permitia encontrar formas de subsistência dependendo das circunstâncias e das necessidades. Coisa que hoje não acontece. O que os nossos jovens aprendem durante a infância, a adolescência e a idade adulta, são as matérias leccionadas nas escolas (e por vezes nem essas ficam a dominar de forma que lhes venha a ser útil no futuro). Isto gera grandes quantidades de adultos dependentes de terceiros para tudo o que não tenha estritamente a ver com a profissão que eventualmente desempenhem. Se cai um botão da camisa, já não se veste essa e logo se troca por outra. Ou então,“Ó mãe, coze-me aí este botão, que caiu!”.
Encontramo-nos numa altura em que devemos começar a pensar se faz sentido continuar a caminhar neste sentido de evolução aparente. Parece que cada vez há mais coisas novas, nomeadamente na área das tecnologias, cada vez é mais rápido chegar a outro ponto do mundo, cada vez temos mais informação à distância de um click. Mas ao mesmo tempo, nunca estivemos tão isolados uns dos outros (embora em contacto diário através das redes sociais), tão centrados em nós mesmos, tão egoístas e tão pouco amigos de partilhar e de praticar a entre-ajuda. Nunca atingimos níveis tão dramáticos de destruição e poluição ao nível global. E nunca nos afastámos tanto da Natureza como agora. O expoente máximo disso são algumas crianças que pensam que o frango é um alimento que se compra embalado no supermercado. Mas existem muitas situações intermédias que não deixam de ser preocupantes. Se perguntarmos a crianças que vivem na cidade de onde vêm os morangos, algumas poderão responder que vêm de uma árvore; muitas não saberão que as batatas e as cenouras se desenvolvem debaixo da terra. Numa ou outra Escola já se vai vendo a tradição de ter uma horta biológica, mas se calhar não chega.
Por vezes, ponho-me a pensar se não seria melhor trabalharmos menos horas nos nossos empregos e passarmos a regressar um pouco às origens. Para além da vantagem óbvia de gerar emprego, voltar um pouco atrás poderá ser a única forma de garantir a sustentabilidade do planeta e de nós próprios. O planeta agradeceria se, por exemplo, aquilo que vestimos e comemos não tiver de ser produzido noutro continente e transportado de avião até nós. Por outro lado, se reaprendessemos a (e tivéssemos tempo para) reparar o que se estraga, não seriamos tão consumistas e não produziríamos tanta quantidade de desperdício.
Outra noção que é importante discutir é a soberania das populações. Nada do que comemos, vestimos ou compramos depende directamente de nós nem está sob qualquer tipo de controlo da nossa parte. Somos eternamente dependentes das importações e daquilo que as grandes superfícies nos dizem que devemos comprar.
Ana Raposo Marques







