PARA MEMÓRIA FUTURA OU A MEMÓRIA TEM FUTURO!

 

“A memória é uma ferramenta da História, uma aprendizagem do futuro”

 

  1. PARA MEMÓRIA FUTURA

 

Ao longo da história do grande complexo químico-industrial da CUF/Quimigal, no Barreiro, com mais de 90 anos de laboração organizada e de trabalho criador, registaram-se vários episódios graves de lesa-património histórico.

 

Aqui se registam os mais significativos para memória futura:

 

Anos 20 do século XX, destruição da Capela de St.ª Bárbara, no Alto do mesmo nome, por decisão de Alfredo da Silva, onde foram construídas vivendas para quadros superiores, com vista para o rio.

 

Meados dos anos 60, encerramento da Estrada Municipal do Lavradio, por decisão conjunta da CUF e da C.M.Barreiro, dirigida por um quadro técnico superior da dita (Eng.º Bento Louro).

 

Na mesma altura foi arrasado completamente o Bairro Operário primordial, por decisão da Administração CUF (presidida por Jorge de Mello) para ampliação das fábricas, nunca realizada.

 

No final dos anos 80, foram destruídas as casas restantes junto ao refeitório 2, prelúdio para a proposta da Administração da Quimiparque de demolição do restante Bairro de St.ª. Bárbara, impedida pelas Autarquias do Barreiro.

 

Final dos anos 90, destruição quase completa das Fábricas da Área Sul (excepto uma chaminé!), nomeadamente os edifícios construídos em madeira das colónias (anos 30), com uma arquitectura riquíssima, única no País.

 

  1. A MEMÓRIA TEM FUTURO SUSTENTÁVEL

 

Para o próximo Fórum do Património 2017, no ano dedicado pelas Nações Unidas ao turismo sustentável, foi escrito o seguinte no seu programa:

 

“Face à influência crescente sobre as políticas públicas dos grandes grupos de interesse organizados que representam sectores da economia, é indispensável reforçar os movimentos de cidadãos, também como grupos de interesse organizados, sobretudo para a defesa do bem comum e da preservação dos valores fundamentais das comunidades. A salvaguarda do património cultural, enquanto referência identitária e de memória colectiva, é um dos domínios em que esses movimentos, sob a forma de organizações não governamentais (ONG) do património, fazem todo o sentido […] A favor da salvaguarda do património cultural construído e da sua utilização sustentável, constituindo uma alternativa credível à abordagem demasiado economicista e de curto prazo, suscitada pela actual situação do País.”

 

3.UM PROJECTO CRITICÁVEL

 

Vem isto a propósito de um projectado plano de eliminação de vários edifícios históricos das Ruas da União e da CUF, para “abrir” a antiga zona industrial à cidade.

 

Não pondo em causa a intenção de derrubar os muros que sempre dividiram o complexo industrial da vila-cidade que lhe deu “suor e lágrimas”, recebendo em troca um tremendo impacte ambiental e nem um tostão de impostos, importa questionar, equacionar as preocupações e formular as sugestões que decorrem das considerações anteriores:

 

  1. a) As ruas da União e da CUF constituem pelo seu traçado e pela sua arquitectura-paisagem industrial, um bem patrimonial inestimável. É a imagem do “passar por dentro das fábricas” que todos os visitantes (potenciais turistas) referem e retêm!

 

  1. b) Os edifícios circundantes têm um valor histórico imperdível nas memórias do engenho, da direcção, do trabalho e da resistência de sucessivas gerações de técnicos, operários e empregados (em três gerações foram por certo mais de 50 mil!).

 

          Assinalamos:

-Posto e caserna do Destacamento da GNR, ocupante e opressor militar de 1943 a 1974, onde também funcionou a PIDE, com interrogatórios, sevícias e espancamentos.

 

– Casa de Alfredo da Silva, mesmo descontando o saudosismo serôdio do empreendedor “pobrezinho”, de pijama remendado e pantufas coçadas.

 

– As baias onde ainda passam os comboios do Amoníaco (60 postos de trabalho a preservar) e onde foi assassinado Tiago, chefe dos guardas e da rede de bufos, símbolo da fascização da CUF, nos anos 30/40 do século XX.

 

– O edifício da Direcção das Fábricas, onde funcionaram sucessivos dirigentes, mais ou menos competentes no “cumprimento de ordens” ou na orientação inteligente. Está em excelente estado de conservação para ulteriores aproveitamentos culturais ou sociais.

 

– O Posto Médico, um edifício de arquitectura patrimonial (tem claustro), de memória prestimosa e de “espigas” com o títere Vicente “Papa-Ratos”, quando “deitavam abaixo” as horas a quem se demorasse involuntariamente.

 

– O Departamento de Projectos, um edifício notável, em bom estado de conservação e certamente útil para a cidade carenciada de equipamentos para fins associativos e afins.

 

– O inigualado edifício em tijolo burro, num estilo “revolução industrial”, onde funcionou a Direcção e Serviços de Manutenção, infelizmente em mau estado de conservação.

 

– O edifício do Grupo Desportivo, o que resta do primitivo Bairro Operário, depois sede das Organizações dos Trabalhadores, incompreensivelmente desaproveitado.

 

4.INTERROGAÇÃO TAMBÉM PROPOSTA

 

Então não se deita nada abaixo para alargar a rua e facilitar a circulação?

 

Como dizem os alentejanos (o Barreiro é historicamente o princípio e o fim do Alentejo!), “Lá vai Serpa, lá vai Moura e as Pias ficam no meio!”.

 

Talvez a questão se resolva a contento com a abertura de uma via “interior” (de resto já existente!) em paralelo com a rua da União e com sentido de circulação inverso.

 

No Largo das Obras a solução é simples e compatível. A Nascente, no espaço entre o “Posto Médico” e o “Departamento de Projectos”, a “amarração” à rua da CUF é assunto para os arquitectos resolverem.

 

Derrubem-se os muros (em tempos de multiplicação dos ditos), aproveite-se o imenso espaço da Área Sul entregue “às urtigas”, para áreas de lazer, conserve-se a interface ferroviária, mas sobretudo preserve-se a memória arquitectónica industrial das ruas da União e da CUF, conservando em “ilhas organizadas” os edifícios históricos e de valor utilitário para a cidade.

 

O futuro agradece que se preserve a memória, o turismo sustentado ajudará a cidade e o Barreiro poderá elevar-se a “Património Nacional de Arqueologia Industrial”.

 

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