Setúbal saiu à rua inspirado pelo espírito de Abril para celebrar os 44 anos da Revolução dos Cravos, numa festa que incluiu obras de requalificação do espaço público, marcada por uma sentida homenagem a Odete Santos.

 

O reconhecimento público pela Assembleia Municipal de Setúbal a Odete Santos, figura fundamental na construção do Portugal democrático, foi um dos momentos altos das comemorações do 25 de Abril, este ano com cerimónia solene realizada no Fórum Municipal Luísa Todi.

“Mulher, militante comunista, deputada, autarca, advogada, atriz, a Odete [Santos] integra o nosso património político porque fez história com a sua permanente disponibilidade para lutar pelos que mais necessitam”, frisou o presidente da Assembleia Municipal de Setúbal, André Martins.

Para o responsável, a homenageada “fez história”, como deputada, em inúmeras matérias na área da justiça e no combate pela interrupção voluntária da gravidez,“quebrando velhos e inaceitáveis preconceitos que transformavam muitas mulheres portuguesas em criminosas de delito comum”.

Por isso e muito mais, salientou André Martins, “a perseverança, a força e o saber da Odete Santos faz dela uma mulher que todos respeitam e admiram”.

Odete Santos, que hoje completa 77 anos, natural da Guarda e que fez de Setúbal a sua cidade, foi homenageada com a exibição de um documentário audiovisual biográfico, o qual revela memórias da vida pessoal, profissional e política, complementada por testemunhos de personalidades que partilharam esse percurso.

O secretário-geral do Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa, destacou Odete Santos como “uma figura ímpar que continua, com determinação, na defesa 

de uma vida melhor”.

Já Álvaro Laborinho Lúcio, ex-ministro da Justiça, lembrou o “talento para as artes cénicas e o encanto para a vida” da homenageada, tal como a vontade incondicional de trazer sempre “uma justiça mais próxima dos cidadãos”.

Ilda Figueiredo, deputada, frisou que “falar de Odete Santos é falar da luta pelos direitos das mulheres”, enquanto José Armando Carvalho, advogado, exaltou o ecletismo da homenageada no ramo da advocacia. “Advogada de tudo que teve no Direito Criminal os principais êxitos.”

Odete Santos, ovacionada de pé pelo público no Fórum Municipal Luísa Todi, recebeu da presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, uma réplica da escultura de Mariana Torres, operária conserveira e figura maior na luta pelos direitos laborais e cuja memória é perpetuada na Fonte Nova.

No estilo de intervenção que sempre a caracterizou, não obstante alguma debilidade de saúde, agradeceu a oferta e elogiou a obra feita sob a presidência de Maria das Dores Meira. “Setúbal embelezou-se tremendamente nos últimos anos.Uma grande transformação e mudança na cidade.”Emocionada pelo reconhecimento, foi surpreendida pelas memórias. “Nem sei como conseguiram isto”, vincou, para depois partilhar excertos de poemas de dois dos autores de eleição, Jorge de Sena, com “A Cor da Liberdade”, e Ary dos Santos, com “As Portas que Abril Abriu”.

A cerimónia da Assembleia Municipal continuou com “Mudanças de Abril”, com José Pedro Soares, preso político do regime fascista no princípio da década de setenta, a partilhar a experiência e vivências. “Há 44 anos já sabíamos o significado maior de Grândola, Vila Morena”, exaltou.

Numa intervenção emotiva, recordou as perseguições políticas e a prisão da ditadura de Salazar.

A cerimónia dos 44 anos do 25 de Abril culminou com um momento musical de Manuel Freire, que voltou a cantar o poema de António Gedeão “Pedra Filosofal”, momentos antes da música-senha “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso.

De Setúbal a Azeitão, do centro urbano às periferias, a festa de Abril esteve em todo o lado e em proximidade com a população, com o território a ficar dotado de mais obras de arte e equipamentos que elevam a qualidade de vida no concelho, ao mesmo tempo que evocam símbolos maiores da cultura setubalense e azeitonense.

Em Azeitão, a memória de Carlos Alberto Ferreira Júnior, operário, orador, pintor, escritor, dirigente associativo e antifascista convicto, é perpetuada no Rossio de Vila Nogueira, em forma de escultura que exalta a personalidade azeitonense homenageada no Dia da Liberdade.

A obra de arte, com cerca de 150 quilogramas, é da autoria da escultora espanhola Lourdes Umerez, artista residente da Fundição Artística Alfa Arte, e retrata, à escala real, o homem falecido a 2 de julho de 1997.

A escultura, uma iniciativa da Junta de Freguesia de Azeitão com a colaboração da Câmara Municipal de Setúbal, retrata o homenageado com a mão do braço esquerdo, diminuído, no bolso, como era seu hábito.

“Usava sempre a pasta debaixo do braço onde guardava as suas memórias e os escritos para os seus livros. No bolso esquerdo da camisa colocava as canetas e a bolsa com os óculos”, recordou o amigo Diamantino Estanislau sobre o homem localmente conhecido por “Mestre Carlos”.

Natércia Ferreira, a mais velha dos seis filhos de Carlos Alberto Ferreira Júnior, agradeceu a homenagem feita ao pai, perseguido e preso pela polícia política antes do 25 de Abril de 1974. “Lembro-me de esconder os livros dele no pinhal com medo que a PIDE os encontrasse.”

Para a presidente da Junta de Freguesia de Azeitão, Celestina Neves, a homenagem ao azeitonense nascido a 10 de outubro de 1906 é feita com toda a justiça. “Um homem invulgar, defensor de direitos, com enorme capacidade de luta e persistência e, sobretudo, com forte espírito associativo.”

A memória de Carlos Alberto Ferreira Júnior, afirmou a autarca, vai muito mais além do associativismo. “Leva-nos à luta contra o fascismo, por direitos e pela democracia, valores do espírito de Abril. Esta homenagem não podia ser noutro dia”.

Acrescentou, ainda, que o homenageado é “um exemplo de quem se apaixona por causas”.

Já a presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, sublinhou a entrega do homenageado “à solidariedade e à ajuda aos outros”, naquele que é um “justo reconhecimento” ao homem que, em 1985, foi agraciado pelo município com a Medalha de Honra da Cidade na classe Paz e Liberdade.

A cerimónia de inauguração da estátua incluiu ainda um apontamento musical pela Orquestra Típica de Cantares de Azeitão, dirigida pelo maestro Caineta, que interpretou o Hino de Azeitão e um poema musicado da autoria do “Mestre Carlos” intitulado “Azeitão Minha Terra Tão Bela”.

Já em Setúbal, novas obras de arte embelezam o espaço público na Avenida Luísa Todi e exaltam um dos símbolos gastronómicos da cidade, o choco, com duas peças da autoria do ilustrador setubalense Zé Nova instaladas nos extremos nascente e poente da artéria.

A homenagem ao choco frito de Setúbal, em género de ilustração, é feita pelo “Choco Pessoa”, instalada perto da rotunda das Fontainhas e inspirada na escultura evocativa de Fernando Pessoa existente no Café A Brasileira, em Lisboa, e pelo “Choco Frigideira”, esta colocada na zona de acesso às praias da Arrábida.

Já o Largo Dr. Francisco Soveral, também conhecido como Largo da Ribeira Velha, foi beneficiado com um novo palco/banco instalado em redor do plátano classificado de Interesse Municipal, que foi estreado com um concerto pelo projeto Canções de Abril, com temas de autores de antes e depois da Revolução dos Cravos.

“É uma alegria ver este largo com vida e música”, enalteceu a presidente da autarquia, Maria das Dores Meira. “Mais um espaço requalificado, agora com apontamentos mais contemporâneos, transformado num palco/banco”, acrescentou, para usufruto de todos e para a realização de pequenos espetáculos.

O novo equipamento, que ocupa a área circular em torno da árvore, está assente numa estrutura metálica, forrada a madeira natural, e alindada com uma chapa cinzenta com corte a laser de imagens de folhas do plátano que circunda. À noite, o palco/banco é retroiluminado.

Além das inaugurações, a festa comemorativa dos 44 anos da Liberdade começou logo pela manhã, com as habituais cerimónias protocolares que incluíram o hastear da bandeira nos Paços do Concelho e uma sessão solene da Assembleia Municipal de Setúbal, no Fórum Municipal Luísa Todi.

Durante toda a manhã, o grupo EnvelheSeres distribuiu cravos pelos utentes das associações que integram o projeto e, à tarde, na Sala José Afonso da Casa da Cultura, realizou-se a dramatização “Single Story”, de Anabela Almeida e Sara Duarte.

As comemorações dos 44 anos da Revolução dos Cravos incluíram, na noite de 24, com um programa cultural gratuito para a população que anunciou a chegada da liberdade, com música e um espetáculo pirotécnico.

Na Praça de Bocage, a distribuição de cravos antecedeu um concerto com a banda UHF e os artistas convidados Samuel, José Jorge Letria e Armando Teixeira “Balla”.

O evento comemorativo, que incluiu uma intervenção da presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, integrou uma arruada por fanfarra e, à meia-noite, na Doca dos Pescadores, na frente ribeirinha, um espetáculo de fogo de artifício que recebeu o Dia da Liberdade.

 

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