Reinventemos a educação no espaço público

Se existe assunto sobejamente falado, mas nem sempre correctamente discutido, é a educação.

Todos conhecemos tudo e, sendo tema de que todos falamos é, simultaneamente, um dos mais desconhecidos. A saturação opinativa, a que tem estado sujeito, criou algumas dificuldades a que se instale um conhecimento informado.

Começa a sobrevir a urgência de dar corpo a uma nova forma de encarar a educação, no espaço público, e esta, passará não só, pela democratização dos conhecimentos, como pela aposta em um novo arquétipo de cultura escolar.

O sistema escolar mantém-se inalterado desde há séculos. Pouco se transmudou o formato de dar aulas, as salas mantêm a mesma estrutura física e os edifícios poucas alterações sofreram (longos corredores ladeados por sala fechadas e devidamente compartimentadas.)

Uma nova ideia de escola precisa-se.

A necessidade de devolver a educação à sociedade (através do espaço público), responsabilizando toda uma comunidade sobre uma nova forma de atuar, possibilitaria a criação de um novo modelo educativo que, indo muito para além da escola, apelaria a constituição de comunidades locais de aprendizagem.

Porque temos de aprender e ensinar dentro das salas de aula? O ensino não é, nem pode ser, só a escola. Porque temos de importar modelos? Não seremos capazes de criar novos paradigmas, adaptados às nossas realidades?

O debitar de matérias contínua inalterável, continua-se a ensinar caligrafia, a decorar tabuadas…E para quê? Estamos no século XXI. As atuais crianças não são o nosso reflexo, são outras as solicitações e precisamos saber ir ao seu encontro. Toda a comunicação é feita de modo diferente e as crianças já não permitem que as moldemos. Cada vez mais cedo sabem o que querem e do que precisam. Não faz sentido a atual compartimentação do ensino, não faz sentido ensinar todos da mesma maneira, não faz sentido que quem não “sabe” fique retido, não faz sentido passar, por vezes, 9 horas na escola e chegar a casa e ter tarefas escolares a cumprir, não faz sentido a existência de turmas com 30 crianças, não faz sentido….

A discussão pública de assuntos comuns ajudaria a repensar a atual dinâmica educativa.

Ao ser em simultâneo um problema e uma vantagem, a discussão do tema induz a debates acerbados que apenas protelam a implementação de uma verdadeira educação, no espaço público. Não podemos lutar por um espaço público de educação se este não for acompanhado por um espaço público do conhecimento transformador, um espaço público da política interventiva.

O mundo mudou, a educação, ainda não.

E, assim, a escola vai continuando fechada dentro das suas paredes.

Temos de apostar mais na exploração de métodos do que na imposição de conteúdos.

A aposta na interdisciplinaridade, em práticas pedagógicas assentes em valores solidários, de ajuda, de respeito pela diferença, de trabalho coletivo, contribuirá para que as nossas crianças se tornem seres humanos muito melhores do que nós.

Se permitíssemos aos nossos alunos criarem, em vez de consumirem, com toda a certeza gostariam muito mais da escola.

Mas tudo isto dá muito trabalho e exige muitíssimo empenho, por parte de toda a população. Não compete só aos docentes terem a seu cargo toda esta complicada tarefa. As crianças não são responsabilidade dos professores, são um compromisso de toda a uma comunidade, que, cada vez mais, se auto- desresponsabiliza.

Mas apostar no pensamento crítico pode tornar-se um problema para os professores. Ao serem questionados terão de sair das suas zonas de conforto, cotejando-se com o desconhecido. E se existe profissão que gosta pouco de arriscar e de inovar, são os professores. Não questiono as suas competências, não duvido das suas capacidades nem do seu empenho, mas a atual escola continua a não cumprir algumas das suas funções: não garante o direito à educação para todos (continua a ser discriminadora) e continua a insistir em modelos descontextualizados, e já muito ultrapassados, não indo ao encontro dos interesses das atuais crianças e jovens, incluindo os oriundos de outras culturas e/ou etnias. Sei do que falo, pertenço a esta classe profissional.

Aqui deparamo-nos com outro problema.

Todo o nosso sistema educativo continua influenciado por uma cultura branca, católica e urbana, tentando, sempre, manter esta hegemonia. Poucos são os docentes que estão preparados para “educarem” para a multiculturalidade, proporcionando a transformação de novas realidade em igualdade de oportunidades.

Conceptualizemos o regresso aos fundamentos.

Vivemos institucionalizados, existem regras para tudo, mas a desobediência liberta, a mutabilidade é um bem necessário.

A circulação de conhecimentos dentro das comunidades é possível, basta querer.

Uma nova intencionalidade cultural precisa-se.

A economia da competição, o medo do apoucamento, as práticas pseudo-securizantes, continuam a ser mais do mesmo. Novos questionamentos começam a surgir, para as quais temos de encontrar respostas

Urge encontrar novas conceções sobre o modo de decidir no campo da educação e sobre as políticas públicas educativas. A abertura da escola às comunidades, tornando-a local de aprendizagens é difícil, mas vai valer a pena.

Vivemos em permanentes ambivalências, mas dizemo-nos racionais.

Reinventemos, então, a educação no espaço público como a melhor forma de a democratizar e universalizar.

 

 

 

Este assunto fica para outo texto.

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