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Ao declarar esperar que a Igreja Católica sirva de “exemplo” na resposta aos abusos sexuais, o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa acende um debate urgente: como avaliar essa pretensa exemplaridade quando sobreviventes ainda reclamam reconhecimento e apoio? A relevância é imediata — decisões administrativas e falhas de acolhimento continuam a determinar quem recebe justiça e quem fica silenciado.
Virgílio Antunes afirmou recentemente que a instituição agiu com seriedade na identificação de casos de abuso e que isso poderia inspirar a sociedade. A reivindicação exige escrutínio. Ao olhar para a atuação da Igreja nos últimos anos, é difícil vê-la como modelo sem uma revisão honesta do que falhou — e do que permanece por fazer.
Antes mesmo da criação de mecanismos independentes, houve resistências internas que atrasaram investigações e reconhecimento. Figuras da hierarquia minimizaram o problema ou recusaram procedimentos de averiguação nas dioceses que lideravam. Essas posições não foram incidentes isolados: refletiram uma prática recorrente de adiar confrontos e reduzir riscos institucionais, em detrimento das pessoas afetadas.
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Igreja perde credibilidade por escândalos internos
O que faltou
- Acolhimento psicológico contínuo e coordenado para vítimas e sobreviventes.
- Transparência nas investigações e na divulgação de resultados.
- Canais de apoio acessíveis e independentes da gestão eclesiástica.
- Critérios de elegibilidade que não excluam relatos legítimos por falta de provas documentais.
- Responsabilização clara de agentes e estruturas que encobriram ou transferiram agressões.
O caso do Grupo VITA ilustra parte do problema prático: dados públicos indicam que quase metade das solicitações de apoio foram consideradas inelegíveis para acompanhamento. Num contexto onde a violência sexual raramente produz provas imediatas e costuma ser acompanhada por silêncio prolongado, esse tipo de filtragem aumenta a sensação de injustiça e revitimizacão.
Para além das estatísticas, há relatos diretos de quem procurou ajuda. Sobreviventes atendidos por associações apontam frustração e desconfiança — não só pela falta de respostas concretas, mas pela impressão de que a prioridade foi proteger a instituição em vez de cuidar das pessoas.
Por que isto importa hoje
Mais do que um conflito interno da Igreja, esta questão tem impacto público: mina a confiança em instituições e em mecanismos de proteção, condiciona a disposição de vítimas a denunciar e influencia políticas públicas de prevenção e apoio.
Sem reparações tangíveis — investigação imparcial, medidas de apoio efetivo, mudanças nas políticas internas e responsabilização — as declarações institucionais correm o risco de ficar vazias. A recuperação da confiança passa por atos concretos, não apenas por palavras.
Apontar caminhos não é simples, mas há medidas urgentes que podem reduzir danos e restaurar credibilidade: institutos independentes para apurar denúncias, protocolos de acolhimento padronizados, maior articulação entre Estado e organizações civis e revisão dos critérios que excluem relatos sensíveis.
Enquanto essas transformações não forem implementadas, qualquer autoelogio sobre “exemplaridade” parecerá prematuro aos olhos das vítimas e da opinião pública. A memória dos erros é condição para evitar a repetição — e a exigência por responsabilização permanece central.
Ângelo Fernandes é fundador da associação Quebrar o Silêncio — organização portuguesa que presta apoio especializado a homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual — e autor de obras sobre prevenção do abuso sexual infantil e de ficção.











