«Toda a gente procura a semente

Que dá flor…

Toda a gente foge da demência,

Procura a inocência,

Dentro da semente»

Catarina Mendes*

AQUILO em que se confia é tão importante.

Aquilo em que se confia e em que se acredita determina o que se faz, no mundo e para com os outros. Ao mesmo tempo, aqueles em quem se confia entram, através dessa confiança, na vida da pessoa – e passam, desta forma, a ter o poder para a mudar, para melhor ou para pior. A confiança é, com efeito, uma das coisas mais importantes que se pode oferecer a alguém. Convém, portanto, que seja bem concedida.

COMO SHAKESPEARE DISSE, pelas palavras da condessa no Acto I, Cena I de “All’s Well That Ends Well”, «Ama todos, confia em alguns, não faças mal a nenhum».

Confia em quem o merece, e em tudo mostra mereceres confiança.

QUANDO SE TEM CONFIANÇA NO QUE É BOM, verdadeiro e pleno, pode-se chegar longe na vida, embora isso possa não ser imediatamente evidente. Boas ideias mudam o mundo, boas pessoas, o futuro, e boas atitudes, um momento, um estado de espírito, uma vida.

PORÉM, quando se confia no que é mau e degenerado, é isso que se traz para a própria vida, e isto é algo que, no fim de contas, só pode dar maus resultados.

Dar confiança a quem não a merece é sempre má ideia; e, por vezes, a confiança é o bem que, uma vez atribuído, dá acesso a todos os restantes bens.

Quem não tem palavra, não tem palavra, e o facto é que as falsas promessas são feitas para ser quebradas. Pessoas destrutivas destroem o que podem, após o que procuram mais para destruir.

Confiar em ideias superficiais expressa falta de perspicácia, e dar guarida a falsas crenças induz em erro. E, claro, acalentar mentiras confortáveis é algo que só pode levar a cegueira.

Quem acredita no absurdo, entrega-se ao absurdo, e faz o absurdo. Por outro lado, quem mantém a cabeça no lugar e o coração no sítio certo, mesmo enquanto o absurdo é normalizado a toda a volta, pode salvar o dia.

Más escolhas têm consequências reais, e maus cursos de acção estragarão as coisas.

A FALTA DE PRINCÍPIOS CONTAMINA A PESSOA, e as opções corrompidas sujam-na, tanto quanto conspurcam o mundo em redor. A degradação pessoal até pode começar por ser gira e divertida, fazer a pessoa sentir-se especial, aceite e todas essas coisas, e garantir-lhe as mais variadas gratificações de percurso. Porém, o facto é que acaba por lhe tirar tudo o que realmente tem (e, que talvez nem sequer saiba que tem), enquanto lhe oferece falsas recompensas em troca.

A SOCIEDADE HUMANA É ALICERÇADA EM CONFIANÇA interpessoal. Todas as interacções, relações, trocas, intercâmbios e transacções entre seres humanos são baseadas na existência da suficiente confiança entre os mesmos. É a confiança entre pessoas que faz o mundo girar.

A falta de princípios destrói a confiança entre as pessoas. Quando amplamente disseminada, leva ao ponto em que se torna difícil confiar em quem quer que seja. Esse é o ponto no qual a sociedade começa a desagregar-se.

Uma sociedade morre lentamente através da degradação pervasiva do tecido social que advém da destruição da confiança entre seres humanos.

SABE-SE QUE UMA SOCIEDADE ENTROU NA FASE CREPUSCULAR da civilização humana quando as pessoas se tornam narcísicas e mimadas, traiçoeiras e manipulativas. Quando os laços de confiança são feitos para ser abusados – e, quando a amizade e o amor passam a ser equacionados com auto-interesse, e facilmente descartados em troca de uma qualquer mão cheia de nada. Quando as pessoas aprendem a gostar da mentira e do jogo, e quando aprendem o quão vantajoso é ser um bom actor social.

Quando aprendem a enganar os outros, e a ter o mais descontraído à-vontade com as técnicas da manipulação interpessoal. Com o conquistar a confiança do outro, para poder explorar e trair essa confiança. Com o dizer, fazer, e parecer ser todas as coisas certas – saber montar um bom espectáculo. Com o explorar a ingenuidade e a credulidade, e todas as restantes vulnerabilidades. E, com o gerar e explorar falsas expectativas, oferecer promessas e miragens, alimentar falsos sonhos.

SABE-SE QUE A COISA SE TORNOU PROBLEMÁTICA QUANDO se é sistematicamente confrontado com tudo isto ao longo do dia-a-dia, e nas interacções e relações do dia-a-dia. Quantas vezes, até, na vida íntima: o proverbial estar na cama com a sua vampira caprichosa, ou com o seu vampiro imprevisível; a ‘relação especial’ com a sua própria predadora carente, ou com o seu próprio predador exigente.

O abuso na vida relacional é um microcosmo. Depois, há o macrocosmo da sociedade, onde estados manipulam e abusam as suas cidadanias, corporações fazem o mesmo aos seus consumidores, conglomerados aos seus mercados cativos, os media, aos seus espectadores e, toda uma variedade de outras organizações sociais, aos seus respectivos universos de dependentes. E, onde todos são manipulados e abusados por elites financeiras e políticas que, sendo ineptas, adoram subordinar o resto da Humanidade aos seus caprichos e paradigmas, e ainda aos seus interesses e agendas.

EM QUEM CONFIAS, e com base em quê? Esta é, em essência, uma das questões mais importantes da vida.

Como está escrito, julga-se a árvore pelos frutos. As pessoas conhecem-se pelos actos – e não pelo bom aspecto, pelas palavras simpáticas e amorosas, pelo estilo e pelo encanto pessoal, pela aura de respeitabilidade, e por outras superficialidades deste tipo.

Confia-se em quem demonstra, pelos actos, merecer essa confiança. Nunca se confia demasiado poder a ninguém, sobre as nossas próprias vidas e sobre o que é nosso. E, certamente, nunca se confia demasiado poder ao poder, na sociedade em geral.

Estas ideias são vitais em qualquer era e, revelam-se particularmente importantes nos dias de hoje.

O facto é que as pessoas se tornaram extraordinariamente ingénuas e desconhecedoras e, quando assim é, aquiescem a todo o tipo de abusos, nas suas vidas pessoais como na sociedade em geral. E, aquiescem à transformação gradual da sociedade humana numa terra de oportunidades para aqueles que sabem explorar e levar os outros. A vida social torna-se num paraíso para serpentes.

É o que acontece quando se confia no que não se deve, e se dá confiança a quem não se deve.

A SOLUÇÃO reside no discernimento que sabe olhar e ver, e agir com base no que vê. Reside ainda no auto-respeito que se faz respeitar. E, no sentimento humano que se importa com o que acontece ao próximo e que, assim, garante a construção de reais laços de confiança entre seres humanos.

Em essência, reside na inocência magnânime e vigorosa da alma, que, a cada momento, conhece o momento em que está.

Rui Garrido

Comentários, críticas e sugestões para  rui.miguel.jesus.garrido@gmail.com

* Excerto do poema “Candeias numa noite escura”, e estas são as candeias de uma mulher muito especial, Catarina Mendes: http://asementequedaflor.wordpress.com/2019/02/03/candeias-numa-noite-escura/