O livro «Uma Boa Dose de Humor Negro», o qual é da minha autoria e foi publicado pela Emporium Editora em 2020, tem como localização espácio-temporal a cidade de Setúbal, bem como os tempos modernos. Muitos dos críticos perceberam a mensagem que o mesmo pretendia trespassar, tendo eles afirmado que deve ser lido com uma mente «muito aberta». A obra detém uma certa voz crítica e ressentida, nomeadamente um ataque irónico e sardónico em relação à cidade de Setúbal e à vida contemporânea. O mesmo apela a determinados assuntos que são considerados enquanto delicados pela sociedade; contudo, a meu ver, merecem ser tomados com atenção. As pessoas que leram a obra afirmam geralmente que essa explora um certo lado sombrio dos jovens, acabando-se por desenvolver um caleidoscópio de críticas à mentalidade portuguesa atual. Falando um bocado sobre a mesma. 

Quando se vive numa cidade tão pequena como Setúbal, temos que nos habituar à monotonia. E, no entanto, era exatamente isso que me assustava; o não fazer nada assusta o homem porque nós somos instruídos, desde pequenos, que a vida só faz sentido quando somos úteis para a sociedade. 

O narrador da história é um rapaz que leva uma vida descontraída, vendo o mundo através dos olhos de uma criança crítica: tudo não passa de uma mera piada, e por isso a melhor maneira de sair da miséria é usar a racionalização. Este termo psicológico trata-se de um mecanismo de defesa em que a mente «tenta justificar o injustificável» com uma atitude mais positiva, mantendo um estado leviano e dando a volta ao problema com otimismo. Porém, na realidade, esse jovem odeia Setúbal, pois considera que o ambiente patriarca dominante na cidade, repleto de pessoas atrapadas na sua «misere» existência, limitadas e sem capacidade de desfrutar o poder da expansão, apenas acaba por revelar a visão túnel dos portugueses. É óbvio que ele projeta a sua própria infelicidade para o mundo que o rodeia, pensando que assim está num patamar superior (qualquer pessoa que se sente pequnena pretende rebaixar os outros ao ponto de sentir-se num melhor estado de espírito). 

Que melhor vida poderia um homem ter, mesmo que fosse abençoado com todo o poder de Deus? O céu pode esperar, eu já estou no paraíso do prazer!

A obra envolve inúmeras bebedeiras e um mundo boémio, pois a personagem pretende residir num cosmos de hedonismo, epicurismo, fantasia e com todos os seus desejos manifestados. Há também inúmeras referências à filosofia budista, pensando ele que o mundo é sofrimento. Mas erra completamente ao tentar aplicar os ensinamentos de Buda, tentado preenchê-lo através de satisfações momentâneas. Como consequência, o jovem acaba por ter uma vida conturbada, pois não aceita o que é o vulgar e o estereótipo, o mundo da ordem, do trabalho, dos valores da sua sociedade, bem como a vida ordenada. No fundo, ele tem tendências antissociais, o que se revela no seu comportamento iconoclástico. 

Um comediante é alguém que quebra uns dados valores morais, para criar novos. Um comediante tem a obrigação de expor o seu humor negro como mecanismo de defesa para a crueldade da vida.

humor negro é sempre uma manifestação de agressividade, como se tratasse de uma raiva interna que é expressa para arrebatar as circunstâncias exteriores (um processo semelhante ao sarcasmo). A personagem acaba por levantar questões como a política e os ditadores do passado; a sociedade LGBTI; a importância que Portugal apresentou na História (mais concretamente, o dilema da colonização africana); o poder dos influencers e dos gurus atuais; entre outros assuntos. São abordadas outras temáticas como a falsidade e hipocrisia que são exercidas nas redes sociais, a busca pela fama e como os jovens se têm tornado tão ambiciosos à pala de promessas vazias no que diz respeito ao sucesso. 

Reparava na cara dos Setubalenses: pessoas que viviam esmagadas pela sua pequenez. Pessoas que não sabiam viver ou apreciar a vida. Um dia de cada vez e os nossos sonhos adiados para sempre; – eis a mentalidade desta cidade. Mas assim como é em Setúbal, também é a relação de Portugal com todo o mundo.

Uma sociedade é geralmente comparada a um sistema imunitário, onde os leucócitos atuam para abater as anomalias. Quando a anomalia se torna a regra, surge a destruição do sistema, ou, como o livro «A Sociedade do Cansaço» refere, uma forma de doença autoimune. A sociedade luta entre si devido à divergência de valores. É possível considerar a personagem principal como uma célula anormal que começa a crescer e a danificar os valores tradicionais que Portugal ainda apresenta.

Encontrarei a felicidade! Nem que seja amanhã, amanhã, amanhã ou amanhã!…

Fica no ar a questão se este jovem, o qual não se sente enquadrado pelo meio circundante e tampouco se preocupa a tentar agrupar no mesmo, será destruído pelo ecossistema imunitário do mundo lusitano ou se conseguirá trespassar os dogmas desse sistema pela via da sua mente anárquica? Afinal de contas, o otimismo aliado à agressividade resulta sempre numa expressão de humor negro, e eis como surgiu esta obra. 

«Uma Boa Dose de Humor Negro»: disponível nos sites da Emporium Editora, Bertrand, FNAC, WOOK e Rota do Livro.

André Filipe Fragoso Silva – Escritor