O combate contra o COVID-19 é, em primeiro lugar, para condicionar, ao mínimo possível, o seu contágio e curar os infectados e é, em simultâneo, um combate contra os que utilizam as calamidades públicas para aumentar as suas taxas de lucro.

Não é por acaso que já se fala em gabinetes executivos do capital financeiro, que “se muitas pessoas velhas e improdutivas morrerem, isso poderia aumentar a produtividade, porque os jovens e produtivos sobreviverão em maior número!”.

A tese da superpopulação foi defendida no início do século XIX pelo economista britânico e pastor reacionário Thomas Robert Malthus, para justificar as crises do capitalismo.

Sendo uma ideia contrária aos ventos da história e defendida em plena pandemia do COVID – 19 pelos defensores do grande capital especulativo e financeiro, ela é uma ideia perigosa, anti-humana e contra os direitos humanos fundamentais.

Todas as calamidades naturais e públicas foram utlizadas, ao longo da história, para difundir ou criar teses e políticas favorecedores das classes dominantes.

Todos se recordarão do dia 29 de Agosto de 2005, quando o furacão Katrina atingiu New Orleans, matando 2 mil pessoas e destruindo dezenas de milhares de casas nos EUA. A catástrofe permitiu que políticos e empresários ensaiassem um “urbanismo de tábua rasa” para substituir pobres por turistas

Passados 15 anos sobre o desastre Katrina, quase todas as escolas de uma grande cidade foram transformadas em charter schools (escolas fretadas, ou contratadas) dirigidas por um operador que se comporta como um líder empresarial. Milhares de professores foram despedidos e o seu sindicato dissolvido.

Assim como aconteceu com o furacão Katrina, também em Lisboa o poder político e económico se serviu da crise de 2007/2008 para legislar ao serviço do lucro e da especulação. Exemplo disso é a política de licenciamento urbanístico lançada pelo PDM lisboeta de 2012, que veio liberalizar a alteração de usos em toda a cidade. Esta medida, utilizada sem critérios, permitiu e facilitou a especulação imobiliária completamente virada para o lucro e o licenciamento de hotéis, sem qualquer estudo sustentável sobre a sua viabilidade futura.

Na crise do coronavírus já sabemos o suficiente para perceber que esta pandemia serviu de detonador de uma grave crise económica que está apenas a começar. 

Assistimos, diariamente, ao fecho de empresas em cadeia e de forma quase tão explosiva quanto a propagação do vírus. As famílias vivem aterrorizadas com espectro de uma contaminação, mas também do desemprego e da pobreza.

Não devemos esquecer, que antes do Coronavirus, 12 milhões de europeus viviam abaixo dos indicadores mínimos de sobrevivência e a metade da população não podia aquecer sua casa no inverno ou comprar carne ou peixe uma vez por semana, segundo dados do Indicador Europeu de Pobreza e Exclusão Social (2019) e do Relator da ONU para a Extrema Pobreza.

Apesar da grandeza dos números da pobreza, a verdade é que a actual recessão, ao contrário da de 2008, não é causada por uma falta de procura, mas por um “choque no lado da oferta”, traduzida em perda de produção, investimento e comércio. As soluções keynesianas/monetaristas (encharcando os bancos e os mercados financeiros de dinheiro) não funcionarão nesta crise, porque as famílias continuam a usufruir de fracos rendimentos, continuam endividadas, como o estão a maioria das empresas. Sendo uma crise do lado da oferta, é também uma crise do lado da procura, que se vai agravar com os despedimentos e perda de salários e rendimentos.

Perante isto, o que o Governo português tem de fazer é tomar medidas sociais robustas, capazes de trazer liquidez às famílias portuguesas e à maioria das pequenas e médias empresas.

O que precisamos agora é de um Quantitative Easing(afrouxamento quantitativo), ao contrário. Ou seja, em vez de o Governo injectar dinheiro nos bancos à custa dos impostos dos portugueses e de uma austeridade sem fim, devem injectar liquidez (dinheiro) nas famílias e empresas, agora à custa dos credores e da banca que nos espoliaram durante anos seguidos.

O aproveitamento desta crise global não vai ter limites, porque os especuladores financeiros não dão mostras de vacilar perante a necessidade de obter taxas de retorno do capital maiores do que a do crescimento da economia real.

Perante esta eminência, e na defesa das nossas condições de saúde e de vida, devemos exigir que sejam os grandes interesses económicos e financeiros a suportar, desta vez, os custos desta crise.

Alcídio Torres