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Uma cerimónia realizada a 26 de junho trouxe de novo à cena a memória de Manuel Fonte, considerado o último calafate de Mação — uma referência local na construção de embarcações e na pesca tradicional. O encontro reacendeu perguntas urgentes sobre como registar e proteger saberes que já quase não se transmitem.
Vida, ofício e memória
Nascido numa geração com pouca escolaridade, Manuel Fonte aprendeu a carpintaria logo após terminar a quarta classe, mas depressa trocou portas e janelas pela construção de barcos. Especializou‑se na fabricação dos chamados picaretos — pequenas embarcações usadas pelos pescadores do Tejo para capturar sável, lampreia e saboga. O seu primeiro picareto foi vendido por 950 escudos; cada nova unidade chegava a demorar cerca de um mês a ser concluída.
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Além de construtor, Fonte também trabalhou como pescador. Em entrevistas antigas, recordava episódios longos no rio — noites e meses passados a bordo — e fazia notar, com ironia, que se sentia melhor fisicamente enquanto dormia no barco do que em colchões modernos. Morreu em janeiro de 2017, aos 90 anos, deixando um legado prático e simbólico na região.
O tributo em Ortiga
A homenagem encheu a sede da associação mais representativa da Ortiga. João Matos Filipe presidiu a sessão, enquanto o presidente da Câmara, José Fernando Martins, explicou por que o município decidiu distinguir o antigo artesão: não apenas como construtor de centenas de embarcações, mas como autor de uma contribuição que ajudou a moldar a memória coletiva do concelho.
- Lançamento de uma revista editada pela Confraria Ibérica do Tejo.
- Inauguração da exposição fotográfica “Tejo acima — memórias antigas”.
- Intervenções de familiares, colegas e responsáveis locais que sublinharam o valor histórico das práticas tradicionais.
Para os organizadores, a cerimónia foi também uma oportunidade para traduzir a admiração em ações tangíveis: registo de testemunhos, promoção de materiais editoriais e visibilidade pública para a pesca e a construção naval tradicionais.
Porque isto interessa hoje
O caso de Manuel Fonte serve como alerta: ofícios técnicos e rotinas ligadas ao rio correm o risco de desaparecer. A preservação desses saberes tem implicações concretas — para o turismo cultural, para programas educativos e para a construção de uma identidade local que pode sustentar projetos económicos e patrimoniais.
Políticas públicas e iniciativas comunitárias que valorizem mestres artesãos, registem processos e incentivem a transmissão intergeracional tornam‑se, assim, prioridades. Sem elas, materiais, designs e memórias orais podem perder‑se para sempre.
Os interessados podem consultar a revista lançada pela Confraria Ibérica do Tejo e visitar a exposição fotográfica que acompanha a homenagem — duas formas de ver, em imagens e textos, um fragmento da história do Tejo e das comunidades ribeirinhas.












