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Nos últimos meses emergiu nas redes um fenómeno preocupante: jovens a adotar práticas extremas para “melhorar” a aparência — desde evitar banho durante semanas até a automutilação facial — com promessas de maior atratividade e pertença a comunidades online. Importa perceber por que isto já não é um rumor engraçado, mas um problema de saúde pública, psicológico e social.
O termo guarda uma aparência técnica, mas refere-se a um conjunto de comportamentos que variam do autocuidado saudável a intervenções perigosas. Há movimentos que incentivam rotinas benignas — treino, sono, higiene melhorada — e outros que promovem alterações radicais do corpo, às vezes improvisadas e lesivas.
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Quando a vaidade vira risco
Na fronteira entre estética e dano estão práticas que profissionais de saúde consideram perigosas. Relatos e vídeos mostram jovens a tentar moldar os ossos da face com golpes, a recorrer a substâncias para aumentar massa muscular sem supervisão e, em casos extremos, a recusar higiene básica na crença de que isso aumentaria a atração sexual.

Do ponto de vista clínico, essas intervenções podem provocar fraturas, lesões nervosas, infecções, perda dentária e cicatrizes permanentes — consequências que nem sempre são percebidas por quem participa dessas comunidades.
Um cuidado editorial necessário: muitos desses comportamentos circulam embalados como “soluções” rápidas e partem de fórmulas simples de monetização — vender suplementos, hormonas, procedimentos e cursos a públicos inseguros.
O que a investigação tem mostrado
Estudos recentes apontam para uma ligação entre exposição a conteúdos idealizados de musculação nas redes sociais e sinais de descontentamento corporal entre rapazes. Uma investigação com mais de mil participantes na América do Norte encontrou associação entre consumo de imagens centradas na musculatura e sintomas compatíveis com dismorfia muscular. Outra revisão sistemática alerta que adolescentes e jovens adultos são particularmente vulneráveis às pressões sobre o corpo masculino.
Pesquisadores também enquadram estes movimentos dentro de espaços ideológicos mais amplos, onde a preocupação estética se cruza com discursos antifeministas e hierarquias de género. Trabalhos académicos indicam que algumas comunidades online funcionam como ambientes de radicalização, ao promoverem humilhação, intolerância e normalização de violência simbólica.
O mito das “feromonas”
Uma das narrativas que ganhou tração afirma que evitar banho aumenta a libertação de feromonas e, por isso, a atratividade sexual. A ciência não corrobora essa visão simplista: a existência de feromonas humanas com efeito sexual inequívoco permanece inconclusiva, mesmo quando compostos como a androstadienona são estudados e explorados comercialmente.

O odor corporal participa nas percepções sociais, mas transformar a abstinência de higiene em estratégia de sedução é, do ponto de vista prático, contraproducente e potencialmente danoso.
Consequências para indivíduos e para a sociedade
Este fenómeno não é apenas um comportamento excêntrico; tem impacto direto na saúde mental dos jovens, pode alimentar narrativas de supremacia masculina e facilitar tráfegos ideológicos que legitimam a hostilidade contra mulheres, pessoas LGBTI+ e minorias.
- Riscos físicos: fraturas, infeções, danos nervosos, problemas dentários e complicações por uso indevido de substâncias.
- Riscos mentais: ansiedade, depressão, dismorfia corporal, isolamento social e redução da autoestima.
- Riscos sociais: normalização da humilhação corporal, fortalecimento de comunidades misóginas e potencial de radicalização.
- Risco económico: exploração comercial de inseguranças com produtos e intervenções de eficácia duvidosa.
Os elementos acima mostram porque este conjunto de práticas merece atenção das famílias, dos profissionais de saúde e das plataformas digitais — não só para tratar danos imediatos, mas para interromper cadeias de desinformação e exploração.
Contexto histórico e cultural
Melhorar a aparência não é novo: movimentos como o da “metrossexualidade” ou rotinas de autocuidado evoluíram ao longo das últimas décadas. O que mudou é a presença de espaços online que amplificam expectativas irreais e encorajam escaladas — de rotinas estéticas a intervenções extremas.
Em alguns desses nichos, a estética funciona como rótulo de pertença a uma visão de masculinidade rígida, onde o corpo se transforma num marcador de valor social e política. Essa convergência torna o fenómeno menos trivial do que parece.
O que pode ser feito
Prevenção e resposta exigem intervenções em vários níveis:
- Profissionais de saúde: detetar sinais de dismorfia e de comportamentos autolesivos, oferecer tratamento e orientação.
- Famílias e escolas: promover educação sobre imagem corporal e alfabetização mediática para questionar promessas de “soluções rápidas”.
- Plataformas digitais: moderar conteúdos perigosos e reduzir a monetização que explora inseguranças.
- Política pública e investigação: financiar estudos e campanhas que abordem a interseção entre estética, saúde mental e radicalização.
Tratar estas práticas apenas com humor subestima danos reais: por trás de memes e trends há rapazes a perder saúde física e a interiorizar ódio ao próprio corpo, muitas vezes empurrados por indústrias e narrativas ideológicas.
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Ângelo Fernandes é fundador da organização portuguesa de apoio a homens e rapazes sobreviventes de violência sexual, autor de trabalhos sobre prevenção do abuso sexual infantil e de ficção. Mantém intervenção pública sobre direitos, saúde e políticas de proteção.











