Escolher a Europa

As eleições europeias de 26 de Maio são determinantes para o nosso futuro. Há cinco anos, dois terços dos portugueses não votaram e a abstenção em Portugal é sempre superior à média europeia. Isto não faz de nós menos europeus que os outros, mas prejudica a nossa afirmação e a nossa liderança, numa Europa que está em mudança. A decisão que está nas nossas mãos, nas próximas eleições, é demasiado importante para nos demitirmos de a tomar.

Há que reconhecer que há obstáculos à mobilização dos portugueses nestas eleições.

Em primeiro lugar, temos um Primeiro-Ministro que afirma que estas eleições servem para dar um “voto de confiança ao governo”, confundindo estas eleições com qualquer campanha eleitoral nacional. Isto é profundamente errado e desonesto. Colocar as eleições europeias num segundo plano, como sufrágio ao governo, é confundir as coisas e levar as pessoas a afastarem-se de um debate que fica, à partida, prejudicado.

Em segundo lugar, ver as “transferências” de ministros para as listas ao Parlamento Europeu transforma candidaturas em prateleiras, para colocar activos menos populares em Portugal. E se já é mau assistir a isto, pior fica quando verificamos que o cabeça-de-lista do Partido Socialista, como Ministro, foi o responsável pela pior execução de fundos europeus de sempre, em Portugal. Olhar para os que se seguem na lista é quase visitar a lista de membros dos governos de José Sócrates. Não surpreende, por isso, que António Costa queira ser o rosto desta campanha, escondendo aqueles que foram suas escolhas hoje e que, no passado, partilharam presença em governos que, agora, ninguém quer lembrar.

Ainda assim, é fundamental votar no próximo dia 26 de Maio. Precisamos de Deputados ao Parlamento Europeu com a legitimidade suficiente para defender o interesse nacional nas importantes decisões que a União terá de tomar já nos próximos meses. E só com uma votação expressiva terão essa legitimidade.

Precisamos de rejeitar o corte anunciado nos fundos europeus para Portugal, no próximo quadro financeiro plurianual, tão mal negociado por este Governo. Se a política de coesão sofrer um corte de 7% vai haver uma quebra gigantesca no investimento em Portugal. E se os cortes na Política Agrícola Comum se concretizarem, as consequências são imprevisíveis. Outros países, mais ricos do que nós, conseguiram aumentar as suas verbas e precisamos de quem o exija para Portugal. E este é apenas um exemplo. O mais urgente.

Mas há muitos mais exemplos de decisões que temos de tomar. Separar a península de Setúbal da Área Metropolitana de Lisboa para efeitos de fundos europeus é uma verdadeira emergência, para garantir taxas de financiamento muito mais altas. Afirmar a força europeia de protecção civil é urgente para prevenir e combater melhor catástrofes como os incêndios de 2017. Lançar uma política europeia para a natalidade, com apoios concretos para as famílias, é estruturante para a sobrevivência dos nossos sistemas de pensões e segurança social. E muitos outros exemplos podemos apontar.

Os desafios que se colocam são difíceis e exigentes, mas podemos ter esperança. Há sinais para isso. Este ano, quase todos os partidos estão a apresentar listas paritárias entre homens e mulheres e isso é um bom sinal. A experiência e o prestígio de alguns deputados históricos (como Carlos Coelho, com fortes ligações a Setúbal) é equilibrada com uma aposta séria na juventude. Olhe-se para Lídia Pereira, número dois da lista do PSD, que com 27 anos será uma das mais jovens deputadas do hemiciclo, trazendo a irreverência e a inovação que tantas vezes falta à política.

A escolha que temos pela frente, em 26 de Maio, nunca foi tão importante como agora. O mundo em que vivemos enfrenta desafios globais como a digitalização, o crescimento da inteligência artificial, o combate às alterações climáticas, os fluxos migratórios ou a instabilidade do comércio internacional. Nenhum país os consegue enfrentar sozinho. Por isso é tão importante para Portugal estar na Europa e, mais que isso, liderar na Europa. A escolha pela Europa é clara. E a 26 de Maio, votando em quem acreditamos que nos defende melhor, teremos a oportunidade de dizer que Europa queremos. 

André Machado

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