Mário Centeno afirma que a maioria dos debates sobre imigração ignora a evidência científica

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Mário Centeno, antigo governador do Banco de Portugal e ex-ministro das Finanças, defendeu que a imigração tende a ser um fator positivo para a economia portuguesa e pediu que o país evite uma retórica isolacionista. No comentário semanal “O Trigo do Joio”, na CNN Portugal, alertou também para sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho e para a perda de dinamismo do setor privado.

Imigração: ganhos de produtividade e desafio demográfico

Centeno criticou debates sobre a imigração que, segundo ele, caminham “contra a ciência” e não refletem a evidência económica disponível. Estudos citados por Centeno em países da OCDE mostram, afirmou ele, ganhos de produtividade alguns anos após a chegada de migrantes — efeitos que tendem a ser mais visíveis ao fim de uma década.

O economista reconheceu que integrar quem chega exige um esforço de curto prazo. Ainda assim, advertiu que a alternativa pode agravar o já persistente problema do declínio demográfico em Portugal. Sem essa integração, disse, a população tende a reduzir-se de forma mais pronunciada e o país perde capacidade económica.

Mercado de trabalho em arrefecimento

Sobre o emprego, Centeno falou numa “desaceleração muito significativa”. Entre outubro e abril, o número de trabalhadores inscritos na Segurança Social diminuiu em cerca de 21 mil, segundo os dados que mencionou.

Embora 2025 tenha registado a criação de aproximadamente 76 mil postos de trabalho, esse valor representa quase metade do ritmo verificado antes da pandemia. Para Centeno, a expansão do emprego público tem atenuado o impacto da queda no setor privado, conduzindo a um quadro em que os indicadores agregados ficam, diz ele, parcialmente “embelezados”.

“O setor privado está em regressão”, afirmou, sublinhando que a dinâmica de contratação no Estado tem mascarado a desaceleração subjacente.

Transparência dos dados e o debate sobre produtividade

Centeno rejeitou a ideia de que o Governo possa invocar falta de informação para justificar alterações nas políticas públicas. Recordou que os dados da Segurança Social são utilizados há anos pelo Banco de Portugal e por sucessivos executivos.

“Os poderes públicos não se devem nunca esconder por trás da ignorância”, declarou, frisando a responsabilidade das autoridades em basear decisões em evidência disponível.

Sobre a produtividade, alertou para um ponto técnico frequentemente negligenciado: mudanças estatísticas na composição do emprego — com destruição de postos menos produtivos seguida da sua recuperação — podem distorcer leituras simples sobre desempenho do trabalho. Esse efeito, disse, merece ser considerado nas análises e nas políticas que procuram aumentar a produtividade.

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