estátuas vivas de Santarém: bastidores ocultos que mantêm o espetáculo nas ruas

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Num fim de semana de agosto, o centro histórico de Santarém transformou-se num palco onde memória e corpo se encontraram: dezoito artistas deram forma a ofícios quase desaparecidos, criando pequenas cenas que prenderam a atenção de habitantes e turistas. A iniciativa não só revive tradições como reabre um debate sobre o papel das artes performativas na preservação cultural e no uso do espaço público.

Sob um sol intenso, os performers permaneceram imóveis por longos períodos enquanto a cidade seguia seu ritmo à volta. A imobilidade, mais do que uma técnica, tornou-se o mecanismo que aprofunda a ligação entre público, personagem e passado representado.

Preparação: o trabalho que o público não vê

A transformação começa muito antes de o artista entrar na rua. Há quem precise de quase uma hora para vestir o personagem — roupa, adereços e a postura correta — e ainda dedicar tempo a alongamentos e exercícios de concentração. Esses rituais servem para suportar o esforço físico e mental de ficar parado e, ao mesmo tempo, para garantir que cada gesto pontual seja crível.

Artista em preparação, vestindo figurino e adereços para a performance de estátua viva
A transformação começa muito antes de o artista entrar na rua

O artista Zairo Torres, que encarnou um cesteiro, explica que a parte mais difícil é manter a atenção fixa num ponto: essa técnica conduz a uma experiência introspectiva em que o tempo parece suspenso e a observação do ambiente se intensifica. Zairo já representou Portugal em eventos internacionais de estátuas vivas e afirma sentir orgulho ao dar corpo a um ofício que hoje existe mais na lembrança coletiva do que nas ruas.

Mais adiante, outros intérpretes assumiram perfis distintos: Luís Palhares personificou um engraxador, enquanto João Filipe interpretou um cauteleiro. Ambos destacaram a pesquisa sobre gestos e expressões necessária para convencer quem passa de que a figura ali parada pertence a um universo real e reconhecível.

Improvisação e rigor

Nem todos seguem o mesmo método. Guilherme Ferreira, que se dedica a esta arte há duas décadas, prefere deixar margem para o improviso: observa o público, sente a dinâmica do local e decide no momento como reagir. Essa capacidade de adaptação foi um dos motivos que lhe valeu, nesta edição, o Prémio do Júri, atribuído por critérios como qualidade artística, criatividade e expressividade.

Guilherme recorda que, embora a preparação na rua consuma cerca de 30 minutos, o processo criativo é muito mais longo: construção de figurino, seleção e adaptação de materiais, testes de acessórios e repetição até que tudo pareça natural. É esse trabalho “invisível” que sustenta a autenticidade da performance.

  • Pesquisa do ofício: observar documentação, fotografias e relatos para recriar gestos e ferramentas.
  • Figurino e adereços: procurar e adaptar peças que resistam ao ambiente urbano e ao tempo da atuação.
  • Exercícios corporais: alongamentos, treino de postura e técnicas de concentração para manter a imobilidade.
  • Interação controlada: movimentos breves e ensaiados que surpreendem e envolvem o público sem quebrar a ilusão.
  • Avaliação contínua: ajustar a personagem conforme a resposta do público e as condições do espaço.

Passantes frequentemente eram apanhados de surpresa por pequenos movimentos ou pela intensidade do olhar das estátuas. Essas reações — sorrisos, fotografias, conversas interrompidas — mostram como o espetáculo ocupa a rua de forma participativa e gera memórias coletivas imediatas.

Além do efeito estético, o Festival de Estátuas Vivas sinaliza uma oportunidade concreta: dar visibilidade a saberes tradicionais, fomentar turismo cultural e inspirar políticas locais que apoiem a transmissão intergeracional de ofícios. Em suma, a performance de Santarém não se resumiu a uma exibição artística; foi também um lembrete vivo de que património imaterial e espaço público podem ser ativos dinâmicos na vida urbana contemporânea.

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