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Um projecto cultural de Coruche que começou por partilhar poesia transformou-se ao longo da última década num coletivo de teatro que funciona como palco e oficina comunitária. A mudança para a cena teatral, iniciada há alguns anos, tornou o grupo numa referência local para quem procura diálogo, formação e reflexão em torno das artes cénicas.
Fundado em fevereiro de 2012, o coletivo nasceu de encontros mensais dedicados à leitura e à troca de textos, sempre com a participação aberta à comunidade. A temporada de leituras deu lugar a experiências cénicas em 2016, quando a colaboração com o encenador Francisco Pina Queiroz abriu caminho para um trabalho mais sistemático e coletivo.
No mesmo ano, em março, o grupo estreou a primeira peça para assinalar o Dia Mundial do Teatro — um momento de viragem que passou a orientar as actividades seguintes.
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Método centrado nas pessoas
Ao contrário de abordagens que partem de um texto fechado, a equipa desenvolveu uma prática em que a construção dramática nasce das características e das vivências de cada intérprete. O foco está na pessoa antes de qualquer papel; emoção e autenticidade vêm antes da técnica formal.
Esse processo exige trabalho individualizado: cada actor é confrontado com exercícios que exploram limites, expectativas e formas de comunicar com a plateia. O resultado é um repertório marcado por interpretações muito pessoais e por uma relação directa entre criador e público.
Logística e apoio local
As produções do colectivo variam bastante em escala — desde pequenos elencos de dois ou cinco elementos até montagens com quase duas dezenas de participantes —, o que obriga a uma organização cuidadosa e a mobilização de recursos. O município de Coruche tem sido parceiro regular, cedendo espaços e prestando apoio logístico sempre que necessário.
Essa cooperação institucional ajuda a manter uma programação regular e a integrar o projecto na vida cultural do concelho, reforçando o seu papel como espaço de encontro e intervenção social.
Temas e impacto
Ao longo dos anos, as peças trataram assuntos variados: memória, passagem do tempo, condições humanas, e também temas sociais mais duramente sentidos como a guerra ou a demência. A intenção não é apenas entreter, mas suscitar perguntas e provocar reflexão — uma proposta deliberada num contexto social marcado pela rapidez do consumo cultural.
- Do Tempo e das Coisas — leitura encenada de textos de Joaquim Pessoa, sobre memória e passagem do tempo
- Fragmento — A Demência na Velhice — montagem que aborda a perda de identidade e o impacto nas famílias
- Mulheres de Coragem — homenagem às mulheres do Couço, com foco na história e na resistência local
Para os responsáveis, cada projecto deve deixar uma marca: inquietar, suscitar perguntas e criar espaços de partilha entre actores e espectadores. Nesse sentido, o teatro funciona como ferramenta de pausa crítica e de projecto comunitário.
Hoje, o colectivo mantém-se activo, alternandoero-breve programação pública com oficinas e trabalhos de criação. A continuidade do grupo em Coruche mostra como iniciativas culturais de pequena escala conseguem consolidar circuitos de participação e contribuir para a coesão social.
Ao privilegiar autores nacionais e abordagens que põem as pessoas no centro, o projecto procura também uma contribuição discreta, mas sustentada, para a vida cultural portuguesa — um esforço que visa deixar algo mais do que entretenimento: uma experiência reflexiva e partilhada.












