40 espécies migratórias entram em lista de proteção internacional da ONU

A Convenção sobre Migrações de Espécies da ONU (CMS) acrescentou este domingo 40 espécies à sua lista de proteção durante a 15.ª Conferência das Partes (COP15), realizada no Brasil. A decisão cria obrigações legais para os países signatários e chega em um momento crítico, quando muitas populações migratórias seguem em queda.

Entre os novos incluídos estão aves, peixes, tubarões e mamíferos que realizam longas jornadas e dependem de corredores ecológicos transnacionais. A medida foi aprovada por 133 delegações reunidas em Campo Grande, no coração do Pantanal, uma das regiões com maior biodiversidade do planeta.

  • Coruja-das-neves (Bubo scandiacus) — conhecida do grande público por filmes e livros, mas ainda vulnerável em parte de sua área de distribuição.
  • Maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica) — um migrador que percorre dezenas de milhares de quilômetros nas Américas.
  • Tubarão-martelo gigante (Sphyrna mokarran) — espécie de alto valor ecológico e pressão por pesca.
  • Hiena riscada (Hyaena hyaena) — mamífero terrestre que enfrenta perda de habitat em várias regiões.
  • Lontra gigante do Brasil (Pteronura brasiliensis) — espécie aquática que depende de rios conectados e águas limpas.

A Convenção é juridicamente vinculativa para os Estados Parte: isso implica que os governos devem adotar medidas concretas para conservar as espécies listadas, restaurar e proteger habitats essenciais, reduzir barreiras à migração e cooperar internacionalmente. Na prática, trata-se de compromissos que afetam políticas de uso do solo, gestão de rios, regulação pesqueira e planejamento de infraestrutura.

Relatórios apresentados durante a COP15 já evidenciavam a urgência: quase metade (49%) das espécies monitoradas pela CMS mostra tendências de queda populacional, e cerca de 25% está classificada como ameaçada. Outro estudo, divulgado dias antes, sinalizou um risco severo para as migrações de peixes de água doce — como enguias — devido à degradação de habitats, pesca excessiva e a construção de barragens.

Consequências práticas

Para além do simbolismo, a inclusão na lista pode resultar em mudanças concretas nas políticas nacionais e regionais. Entre as ações esperadas estão:

  • Criação ou ampliação de áreas protegidas e corredores migratórios.
  • Revisão de licenças para barragens e obras em cursos d’água.
  • Fortalecimento de fiscalização contra pesca ilegal e comércio de espécies.
  • Programas de restauração ecológica e monitoramento transfronteiriço.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, ressaltou na abertura que migradores cruzam fronteiras e, por isso, exigem respostas coordenadas entre países. Em suas palavras, proteger essas espécies equivale a proteger processos fundamentais para a vida no planeta.

O encontro em Campo Grande seguiu a tendência de eventos internacionais recentes no Brasil: em novembro de 2025 o país sediou a COP30 do clima em Belém, no Pará, reforçando seu papel em debates ambientais globais.

Do ponto de vista do público, as decisões podem se traduzir em medidas tangíveis nos próximos anos — desde mudanças na gestão de rios e pesca até novos investimentos em conservação. Para cientistas e gestores, a expectativa é que a proteção internacional incentive maior colaboração e financiamento para manter rotas migratórias funcionando.

Ao reconhecer formalmente esses 40 migradores, a CMS tenta transformar diagnósticos alarmantes em ações coordenadas — um passo essencial se a meta for impedir que mais espécies percam a capacidade de completar suas viagens vitais.

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