Barcos ecológicos fabricados em Portugal impulsionam transporte verde na França

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Um empreendedor francês está a transformar rios urbanos em rotas de distribuição sustentável: os novos barcos modulares, fabricados no Barreiro, prometem reduzir drasticamente o número de camiões nas cidades e chegam primeiro a Paris — com atenção especial a Lisboa. A iniciativa coloca no centro do debate os impactos imediatos na poluição, no trânsito e na logística de último quilómetro.

Do vale do Reno aos estaleiros portugueses

Thomas Castan, natural de Estrasburgo e há quase uma década radicado em Portugal, fundou a empresa Urban Logistic Solutions (ULS) em 2019. Embora tenha iniciado operações apenas após a pandemia, a frota já está ativa em Estrasburgo e Lyon e prepara-se para operar em outras cidades francesas, com Rouen, Mulhouse e Paris na linha de saída.

Por opção estratégica e por ligação pessoal ao país, Castan escolheu o Barreiro para construir os novos protótipos. Ainda assim, problemas logísticos no estaleiro local obrigaram a deslocar a instalação de alguns componentes — como os motores — para Estrasburgo.

Como funciona o sistema

O princípio é direto: aproveitar os rios que historicamente estruturaram as cidades para levar mercadorias até cais urbanos, onde uma frota de bicicletas elétricas executa a entrega final. A ULS concentra-se em pequenas unidades de carga — desde encomendas de comércio eletrónico a bens alimentares — para aliviar o tráfego rodoviário nos centros.

O primeiro barco modular construído no Barreiro, desmontável em poucas horas, tem como destino a Ponte Alexandre III, em Paris, com a logística preparada para que entregadores em bicicletas elétricas alcancem a Avenida dos Campos Elísios em cerca de seis minutos.

  • Capacidade: até 600 contentores urbanos pequenos
  • Tonelagem: cerca de 120 toneladas por embarcação
  • Equivalência: substitui aproximadamente 150 camiões
  • Redução de emissões: diminui em torno de 82% as emissões comparadas com o transporte rodoviário
  • Modularidade: peças removíveis, montagem/desmontagem rápida
  • Bicicletas: 15 a 20 bicicletas elétricas por barco, com capacidade individual até 200 kg

Potencial e limitações

Castan garante interesse de autarquias francesas e de cidades na Bélgica, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos. Em França, já existem sete cais operacionais em negociação — e outras 21 posições estão em processo de acordo.

Ao mesmo tempo, a ambição de fazer de Portugal um polo industrial para as embarcações e para a produção de contentores e bicicletas esbarra em limitações de espaço: o estaleiro do Barreiro foi considerado insuficiente para a escala desejada. O empresário apontou municípios da margem sul — como Almada, Seixal, Montijo e Alcochete — como possíveis alternativas para um estaleiro maior.

Além da construção, a ULS vê oportunidade para instalar em Portugal um centro de investigação e desenvolvimento para otimizar embarcações, gruas e a integração com a logística urbana.

Por que isto importa agora

Entregas urbanas são uma fonte crescente de emissões, congestionamento e ocupação do espaço público. A proposta de transportar cargas por água e completar a distribuição com bicicletas intervém diretamente nesses três pontos: reduz tráfego de veículos pesados, melhora a qualidade do ar e libera espaço urbano normalmente ocupado por camiões em manobras.

Para cidades históricas e centros com ruas estreitas — como muitas zonas de Lisboa — o modelo oferece uma alternativa viável às limitações do transporte rodoviário, desde que existam investimentos em cais, pontos de transferência e coordenação entre operadores e câmaras municipais.

Desafios a enfrentar

O projeto não é isento de obstáculos: exige licenciamento portuário, capacidade de estaleiro para produção em série, integração com a malha de distribuição urbana e coordenação regulatória entre municípios ribeirinhos. Há ainda a necessidade de demonstrar economicidade face a soluções rodoviárias já estabelecidas.

Mesmo assim, a combinação de vantagens ambientais e de redução de custos operacionais pode acelerar a adoção do modelo, sobretudo em metrópoles preocupadas com metas climáticas e com a descarbonização da mobilidade urbana.

Se a operação em Paris for bem-sucedida, a ULS acredita que o mesmo conceito será replicável em outras cidades europeias — e que Portugal poderá vir a desempenhar papel central na cadeia de produção, caso sejam encontradas instalações adequadas e haja apoio institucional.

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