Macacos em Gibraltar passam a comer terra: estômago afetado por petiscos de visitantes

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Um estudo recente aponta que os macacos que vivem no Rochedo de Gibraltar estão a consumir terra possivelmente para reduzir os efeitos de uma dieta rica em alimentos processados fornecidos por turistas — e, em alguns casos, roubados aos visitantes. A descoberta, com observações entre 2022 e 2024, traz sinais de alerta para a gestão do turismo e para cuidados com a saúde animal na região.

Pesquisadores que investigaram o comportamento dos primatas sugerem que a ingestão intencional de solo, conhecida como geofagia, pode funcionar como uma espécie de mecanismo de defesa digestiva. As conclusões foram publicadas na revista Scientific Reports e envolvem observações diretas de diferentes grupos que habitam o rochedo.

O que os cientistas viram

Os animais vivem em torno de 230 indivíduos, distribuídos por oito grupos. Entre o verão de 2022 e a primavera de 2024, quase um quinto da alimentação observada era composta por alimentos com pouco valor nutricional — salgadinhos, doces e bebidas açucaradas têm sido oferecidos rotineiramente por turistas, apesar das recomendações locais para não alimentar os macacos.

Ao todo, a equipa registou 46 ocasiões em que 44 animais foram vistos a ingerir terra. O fenómeno foi mais frequente entre os grupos com maior contacto humano e intensificou-se em períodos de maior afluência turística. No inverno, com menos visitantes, a probabilidade de os macacos comerem comida humana caiu cerca de 40% e a ingestão de solo diminuiu aproximadamente 30%.

Por que isso pode estar a acontecer

Os autores do estudo defendem que a geofagia entre estes primatas tem uma função protetora do sistema digestivo. A explicação baseia-se na ideia de que alimentos processados alteram a composição do microbioma intestinal e que partículas do solo — incluindo determinadas argilas e minerais — podem ajudar a neutralizar irritações e a restabelecer um equilíbrio microbiano.

Os cientistas também notaram variação entre grupos: enquanto a maioria procura solos argilosos, um grupo localizado nas encostas ocidentais mostrou preferência por solos com resíduos de alcatrão vindos de fissuras na estrada. Isso levanta outra preocupação: o solo consumido pode conter poluentes.

Item Valor observado
População aproximada 230 macacos
Grupos sociais 8
Período do estudo Verão 2022 — Primavera 2024
Percentual da dieta com alimentos pouco saudáveis ~20%
Registos de geofagia 46 ocorrências envolvendo 44 animais
Redução sazonal na ingestão de solo ~30% no inverno

Consequências práticas

As implicações são múltiplas. Além do risco direto que alimentos processados representam para a saúde dos primatas, a preferência por solos potencialmente contaminados aumenta a probabilidade de exposição a metais pesados, derivados de asfaltos e outros poluentes urbanos. Os investigadores pedem análises químicas ao solo para avaliar esse risco.

  • Turismo e educação: reforço das campanhas para impedir a alimentação de animais e melhorar a sinalização.
  • Monitorização ambiental: análises de solo para detetar contaminantes e avaliar impactos a longo prazo.
  • Gestão da fauna: estratégias para reduzir o contacto direto entre turistas e macacos e oferta regulada de alimentação saudável.

A equipa também aponta que o comportamento parece ser transmitido socialmente: os macacos aprendem uns com os outros que tipo de solo ingerir. Essa transmissão cultural entre grupos torna a questão relevante do ponto de vista etológico, pois altera como uma prática potencialmente compensadora — a geofagia — se instala e se mantém em populações expostas às atividades humanas.

Para as autoridades locais e para quem visita Gibraltar, o estudo reforça um aviso já repetido por guias e conservacionistas: alimentar selvagens com produtos processados tem consequências reais e observáveis. Controlar esse contacto e investigar a composição dos solos são passos imediatos recomendados pelos próprios investigadores.

O trabalho combina observações comportamentais com preocupações ambientais e de saúde animal, e coloca novas prioridades para políticas locais: educação do público, fiscalização mais eficaz e investigações químicas do solo. A investigação na revista Scientific Reports é um convite a tomar medidas agora, antes que hábitos potencialmente nocivos se solidifiquem entre uma população de primatas tão emblemática como a de Gibraltar.

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