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Nuno Gomes cruzou os Alpes a pé em 2023 — saindo de Trieste e terminando no Mónaco — e prepara agora uma travessia bem maior nos Himalaias nepaleses. A história interessa porque reúne logística extrema, decisões sobre segurança e um efeito surpreendente: a montanha revelou-se mais exigente para a cabeça do que para o corpo.
O relato foi contado no podcast Conversas do Fim do Mundo e reúne detalhes práticos que valem para qualquer pessoa interessada em longas caminhadas: planeamento, rotas, encontros com a história e lições sobre a solidão.
O percurso e os números
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Na travessia dos Alpes, iniciada em 2023, Nuno saiu quase ao nível do mar em Trieste e concluiu no litoral do Mediterrâneo, no Mónaco. A meta incluía atravessar todos os territórios que integram a cordilheira: Itália, Eslovénia, Áustria, Alemanha, Suíça, França e os pequenos principados de Liechtenstein e Mónaco — um traçado em meia-lua, feito contra o sentido dos ponteiros do relógio.
Planeou 110 dias, mas concluiu a caminhada em cerca de 80 dias. A variação diária foi grande: houve etapas de menos de 10 km e outras perto de 38–39 km, dependendo do relevo, das condições meteorológicas e do estado físico.
O que pesou mais: corpo ou mente?
Fisicamente, Nuno diz que conseguiu cumprir e até antecipar o objetivo. O maior desafio foi emocional. A falta de rede móvel, dias inteiros sem encontrar outras pessoas e a sensação de isolamento profundo tornaram-se o teste mais difícil.
Em alguns trechos passou por um tipo de silêncio absoluto — sem vozes, sem ruídos urbanos — e descreveu a sensação como semelhante às cenas pós-apocalípticas que se veem no cinema. Essas horas solitárias obrigaram-no a repensar prioridades e a valorizar coisas simples como um abrigo seguro e comida disponível.
Planeamento e margem de segurança
Nuno preparou a travessia com antecedência: quase um ano e meio de estudos de mapas e rotas. Usou recursos online para traçar alternativas — caminhos secundários, saídas de emergência e pontos de reabastecimento — e introduziu no itinerário opções de abandono caso as circunstâncias exigissem.
Essa estratégia psicológica funcionou como amortecedor: saber que havia «escapes» permitia-lhe encarar fases duras com objetivos de curto prazo, em vez de focar num objetivo distante e intimidante.
- Duração prevista vs. real: planeado 110 dias → realizado 80 dias.
- Países atravessados: Itália, Eslovénia, Áustria, Alemanha, Suíça, França, Liechtenstein e Mónaco.
- Ritmo diário: entre ~9 km e ~39 km, conforme terreno e condição física.
- Peso da mochila: objetivo para os Himalaias ~14 kg com água e comida; base da mochila ~12 kg.
- Dormida: tendas, refúgios de montanha, bivac e ocasionalmente abrigos militares antigos (bunkers).
- Perigos naturais: presença de ursos e lobos em zonas específicas; recomenda-se cautela e dormir em abrigos quando indicado.
Paisagem, história e encontros inesperados
O percurso trouxe vestígios da Primeira Guerra Mundial: cabos de arame ainda no terreno, bunkers e peças de artilharia abandonadas. Em trechos entre Itália e Áustria, Nuno chegou a dormir dentro de bunkers reutilizados como abrigo temporário.
Na Suíça, a montanha pode parecer mais «tipo postal», mas em algumas áreas Nuno precisou de sair frequentemente para povoações para reabastecer. Por outro lado, o norte de Itália e a fronteira com a Áustria ofereceram percursos menos frequentados e paisagens que ele considerou mais marcantes.
Animais selvagens: o que existe e como lidar
Ursos e lobos fazem parte do ecossistema alpino. A presença de ursos é mais relevante na Eslovénia e em zonas isoladas dos Dolomitas; lobos circulam com maior regularidade em várias regiões. Nuno não avistou ursos, mas encontrou sinais de lobos e foi informado sobre cuidados básicos: evitar acampar em locais expostos, armazenar alimentos fora da tenda e preferir abrigos quando os avisos locais recomendam.
Dois percursos notáveis: Pirinéus e Alpes
Em 2014 Nuno fez os Pirinéus com a companhia de uma parceira: 820 km em cerca de 47 dias pelo GR11, do Atlântico ao Mediterrâneo. Foi uma travessia mais «partilhada» e, segundo ele, com outra qualidade de experiências sociais.
Os Alpes foram a travessia solo mais recente, onde a solidão ficou mais patente — e onde aprendeu a importância de saber desistir com segurança, graças às saídas planeadas para povoações com transportes.
Dicas práticas que surgem do percurso
- Planeie com margem: mapas, tracks e pontos de fuga reduzem o peso psicológico.
- Leve alternativas para mau tempo e para meses sem cobertura móvel.
- Equilíbrio entre conforto e peso: menos é mais, especialmente em grandes altitudes.
- Durma protegido sempre que a região alertar para fauna; use abrigos de madeira ou refúgios quando disponíveis.
- Defina metas curtas — «mais 10 dias» — para manter a motivação.
Entre objetos carregados sempre na mala, Nuno destaca impermeável, gorro, luvas, frontal, tampões para os ouvidos e papel higiénico — itens práticos que fazem a diferença em rotinas repetidas durante semanas.
O próximo desafio: Himalaias nepaleses
Para setembro (partida marcada para 3 de setembro) Nuno planeia iniciar uma travessia nos Himalaias do Nepal: cerca de quatro meses e aproximando-se de 1.700 km, com etapas a altitudes significativamente maiores e necessidade de material invernal.
Ele admite que terá de reduzir ainda mais o peso da mochila, afinar a seleção de roupa e garantir equipamento adequado para neve e frio extremo. Será uma versão ampliada dos desafios mentais e logísticos que encontrou nos Alpes.
Para quem acompanha trilhas longas, a preparação de Nuno resume-se ao equilíbrio entre ambição e prudência: treinar, mapear alternativas, aceitar limites e preservar a capacidade de decidir recuar com segurança.
Por fim, a lição que fica do relato: caminhar durante dias por montanhas densas é tanto uma prova física quanto um espelho da nossa relação com o isolamento, com o planeamento e com as pequenas certezas do quotidiano — uma cama quente, comida disponível, uma conversa ao fim do dia.












