Qualidade do ar ruim em 12 escolas do norte e centro: projeto-piloto lança alerta


Resultados preliminares de um inquérito sobre a qualidade do ar nas imediações de escolas portuguesas mostram níveis de poluentes que já excedem os limites que entrarão em vigor com novas normas europeias — um sinal de alerta imediato para pais, direção das escolas e autoridades locais. A divulgação acontece esta segunda-feira, no Dia Internacional do Ar Limpo para o Céu Azul, e põe em evidência riscos de saúde e lacunas na monitorização atual.

O estudo, liderado pela Associação Bora Ambientar e cofinanciado pela União Europeia no âmbito do projeto “Respirar Fundo”, instalou estações portáteis de medição em 13 escolas de ensino básico e secundário distribuídas por vários concelhos — entre eles Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia, Barcelos e Ponte de Lima. Dos equipamentos foram recolhidos dados contínuos sobre partículas e gases responsáveis por impactos respiratórios e cardiovasculares.

Método e alcance

As estações móveis utilizadas mediram, de forma contínua, concentrações de PM10, PM2.5, NO2 e ozono troposférico. As análises técnicas foram produzidas pelo Centro de Investigação Ambiental e de Sustentabilidade (CENSE) e cobriram 12 das 13 escolas — a unidade de Ílhavo receberá um aparelho apenas no próximo ano letivo.

  • Escolas monitorizadas: 12 (13 no projeto, com uma estação ainda por instalar).
  • Poluentes medidos: PM10, PM2.5, NO2 e O3.
  • Padrões detectados: picos associados às horas de maior circulação automóvel e variações noturnas e ao fim de semana em algumas localidades.
  • Impacto espacial: regiões do norte mostraram maior frequência de excedências, em especial perto de EB Freixo (Ponte de Lima), EB Manhente (Barcelos) e ES António Sérgio (Gaia).
  • Participação: cerca de 1.500 alunos e mais de 250 docentes envolvidos nas atividades pedagógicas do projeto.

Os relatórios apontam que os perfis horários de concentração de partículas e dióxido de azoto convergem para uma forte influência do tráfego rodoviário, com aumentos notáveis nas horas de ponta. Em várias escolas foram observadas ultrapassagens pontuais dos limites legais atualmente em vigor — e o quadro agrava-se se forem aplicados os valores mais restritivos previstos pela Diretiva Europeia 2024/2881, cuja entrada em vigor está prevista para 2030.

Circulação automóvel intensa em hora de ponta, mostrando a influência do tráfego rodoviário na poluição
Os picos de poluição coincidem com as horas de maior tráfego automóvel junto às escolas.

Em particular, os dados da ES António Sérgio revelaram ocorrências repetidas acima do valor-limite anual de 40 µg/m³ para NO2, situação que os investigadores classificam como motivo para vigilância contínua dado o maior risco respiratório em crianças e adolescentes.

Além do tráfego, o estudo detectou sinais de fontes externas que afetam a qualidade do ar junto às escolas — sobretudo em concelhos do norte, onde episódios noturnos e nos fins de semana apontam para contributos de sistemas de aquecimento a biomassa, queimadas e poeiras locais.

Limitações das redes oficiais

A comparação entre as estações portáteis do projeto e as estações de referência da rede nacional mostrou coerência nos padrões, mas também diferenças em níveis absolutos. Os autores salientam que as estações fixas não captam variações em micro‑localizações, o que pode subestimar a exposição real de alunos e funcionários em pontos críticos junto às entradas das escolas.

Isso tem implicações práticas: medidas de política local (alteração de percursos de transporte, zonas de retenção de veículos junto a horários escolares, alternativas de aquecimento sem combustão) podem ser mais eficazes quando baseadas em dados locais e contínuos, em vez de médias de estações distantes.

Zona de retenção de veículos perto de entrada de escola, medida de política local de mobilidade
Medidas como zonas de retenção de veículos podem reduzir a exposição a poluentes nos horários escolares.

Próximos passos e expansão

Desde o arranque das medições, o projeto integrou atividades educativas em disciplinas como Geografia, Ciências Naturais e Físico‑Química. A associação anuncia já uma nova fase, denominada “Respirar+Fundo”, que a partir de outubro ampliará a monitorização a outras regiões com o apoio das autarquias e criará clubes meteorológicos escolares e ações de formação ambiental.

Para gestores escolares e decisores locais, as conclusões preliminares traduzem dois imperativos imediatos: reforçar a monitorização em pontos sensíveis junto às escolas e implementar medidas de mitigação dirigidas a fontes identificadas — sobretudo o tráfego e fontes de combustão local.

Em síntese, o levantamento confirma que a qualidade do ar junto a várias escolas portuguesas exige atenção continuada. Dados locais e temporais mais detalhados são essenciais para proteger crianças e jovens e para orientar intervenções que reduzam exposições evitáveis.

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