Portugal líder em renováveis: mobilidade e edifícios ainda atrasam

Mostrar resumo Ocultar resumo

Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgado nesta sexta-feira, elogia a rápida descarbonização da produção elétrica em Portugal, mas chama a atenção para atrasos persistentes em transportes, edifícios e indústria. As recomendações focam medidas práticas — como apoios direcionados na compra de carros elétricos usados e maior proteção a famílias vulneráveis — que podem afetar diretamente contas e escolhas quotidianas.

Apesar de ter uma das matrizes elétricas com menor intensidade carbónica entre os membros da AIE, Portugal enfrenta agora o desafio de converter esse progresso em redução real das emissões nos sectores que consomem energia. O relatório aponta que, em 2024, cerca de 82% das emissões provinham de transportes, edifícios e indústria, áreas onde os avanços foram desiguais.

O que deu certo — e o que falta

Na produção de eletricidade, a transição foi rápida e visível: mais renováveis e menor dependência de fósseis. Mas a eletrificação dos consumos — aquecimento, deslocações e processos industriais — não acompanhou esse ritmo.

Nos edifícios, há crescimento no uso de bombas de calor e maior eletrificação de equipamentos, porém o parque habitacional continua com baixa eficiência energética e renovação limitada. A AIE destaca entraves financeiros e burocráticos que impedem intervenções profundas e nota que programas públicos nem sempre chegam a quem mais precisa, sobretudo famílias de baixos rendimentos sujeitas à pobreza energética.

O executivo português lançou iniciativas como o programa E‑Lar, mas a agência considera que muitos apoios têm tido alcance restrito — concentrando-se na substituição pontual de equipamentos em vez de reformas estruturais que reduzam consumo a longo prazo.

Frota automóvel: vendas novas sobem, frota continua velha

Há uma dupla face no setor automóvel. Em 2025, carros elétricos representaram cerca de 38% das vendas de veículos novos, um sinal claro de mudança de tendência. Ainda assim, os elétricos continuam a ser uma pequena parcela do total circulante — aproximadamente 6% da frota.

Um fator central é a dependência do mercado de usados importados: perto de 80% dos ligeiros vendidos em Portugal são veículos usados trazidos do exterior, maioritariamente a gasolina ou gasóleo — uma proporção muito superior à média dos países da AIE. Isso mantém a idade média do parque elevada e dificulta a renovação para modelos elétricos.

A AIE recomenda medidas que tornem os veículos elétricos de segunda mão mais acessíveis, ajustando apoios à capacidade de compra das famílias, e o reforço das redes de carregamento, sobretudo em áreas urbanas e para quem não pode instalar um ponto em casa.

  • Apoios dirigidos à compra de elétricos usados, alinhados com o rendimento das famílias.
  • Ampliação das infraestruturas de carregamento nas cidades e em edifícios multifamiliares.
  • Planeamento da rede para antecipar necessidades e reduzir custos societais.
  • Foco nas famílias vulneráveis para evitar que a transição aumente desigualdades ou gere resistência social.

Transportes públicos e mobilidade

Os transportes respondem por mais de metade das emissões nacionais. Para a AIE, a forma mais eficaz de reduzir essa pegada é promover a transferência modal — tirar pessoas dos carros e levá‑las para transportes públicos eficientes e acessíveis.

Reduções tarifárias recentes foram avaliadas positivamente, mas o relatório sublinha que preços mais baixos só surtem efeito se os serviços forem fiáveis e bem planeados. A construção de ligações de alta velocidade e a garantia de acesso equitativo à mobilidade são apontadas como prioridades.

Indústria e gás: riscos e escolhas estratégicas

Na indústria, as emissões mantêm‑se praticamente estagnadas há uma década, apesar de metas climáticas mais ambiciosas. A AIE salienta a necessidade de uma estratégia clara que permita reduzir emissões sem sacrificar competitividade, reconhecendo a disparidade entre grandes empresas e PME.

Outro ponto sensível é o rápido declínio do consumo de gás — redução mais acentuada do que a prevista para 2035 — que coloca desafios ao modelo económico do terminal de Sines e à formação de preços. A agência alerta para o risco de ativos irrecuperáveis e choques de mercado se a retirada dos combustíveis fósseis não for gerida de forma coordenada.

Para mitigar esses riscos, propõe mudanças na forma de remunerar infraestruturas de gás e mecanismos de gestão que garantam funcionamento seguro durante o período de transição.

Implicações para o público

As recomendações da AIE têm impacto direto no bolso e nas escolhas diárias dos portugueses. Esperam‑se iniciativas que podem tornar mais viável a compra de um elétrico usado, aumentar opções de carregamento para quem vive em prédio ou não tem garagem, e direcionar subsídios para lares com menor rendimento para reduzir a pobreza energética.

Ao mesmo tempo, consumidores podem ver alterações na fatura de energia se algumas componentes de custo forem revistas — objetivo apontado pela agência como necessário para aliviar a carga suportada por famílias.

A decisão política nas próximas semanas e meses vai determinar se os ganhos na produção de eletricidade se traduzem em redução efetiva das emissões em toda a economia, sem deixar para trás os mais vulneráveis.

Dê o seu feedback

Seja o primeiro a avaliar este post
ou deixe uma avaliação detalhada



Distrito Online é um meio independente. Apoie-nos adicionando-nos aos seus favoritos do Google News:

Publicar um comentário

Publicar um comentário