Dia da criança: ficar sem publicar pode custar visibilidade e vendas

Quase publiquei a fotografia dos meus filhos no Dia da Criança — e foi a hesitação antes do toque no botão que me fez repensar tudo. Hoje, compartilhar um momento afetuoso já não é um gesto neutro: tem impacto sobre privacidade, identidade e sobre o tipo de infância que estamos a oferecer às próximas gerações.

Tenho dois miúdos, um de nove anos e outro de quatro. O mais novo mal domina as letras, mas desliza o dedo no ecrã com uma habilidade assombrosa; o mais velho passa horas a ver vídeos e a falar sobre quem quer ser quando crescer. Os dois seriam uma excelente foto para publicar, mas foi exatamente essa imagem perfeita que me fez parar.

Quando eu era criança, as coisas tinham outro ritmo. O computador demorava a arrancar e a internet vinha por uma linha telefónica que uivava; navegar era um evento marcado na semana, não um hábito contínuo. Havia longos intervalos de inatividade — sem notificações, sem feed — e desse espaço surgiam ideias, experimentos e inventos que hoje talvez não existissem.

Tédio não era um problema a evitar: era combustível. Passava tardes a abrir programas só para ver o que havia lá dentro, a desmontar brinquedos para entender como funcionavam, a desenhar no Paint até apagar tudo e começar de novo. Esse tempo vazio ensinava a procurar, a tentar e a ficar confortável com o ócio produtivo.

Os meus filhos quase não conhecem esse tipo de tédio. Um jogo, um vídeo, um desafio, e o vazio desaparece. À primeira vista parece uma vitória — crianças entretidas e ocupadas — mas a perda desse espaço livre tem consequências práticas: menos inventividade, menos paciência para caminhos longos, menos tempo para imaginar sem estímulos externos.

Na escola do mais velho, já há crianças que sabem exactamente a profissão que querem: criadores de conteúdo. Não é necessariamente um sonho menor; ser criador pode oferecer carreiras e oportunidades reais. O ponto é outro: a diferença entre consumir e querer ser consumido.

Hoje não basta ver conteúdo — muitas crianças ambicionam ser elas próprias o conteúdo. E parte dessa ambição nasce em casa, quando quem ama mais transforma momentos privados em postagens públicas e constrói, sem pedir, uma pegada digital.

Confesso: já publiquei fotos dos meus filhos e reconheço o prazer imediato dos “likes”. Mas também sei que, nesse processo, a narrativa deixa de ser exclusivamente da criança e passa a servir a imagem dos pais — um retrato de família feliz, uma prova social. É fácil, para alguém que trabalha com comunicação, identificar técnicas de personal branding aplicadas sem pensar em consentimento.

Antes de partilhar, tenho começado a fazer uma pergunta simples: isto é para ele ou para mim? A resposta muda a publicação.

  • Pense no longo prazo: uma foto online pode acompanhá‑lo para sempre.
  • Adie a partilha: guardar álbuns privados até a criança poder decidir o que quer mostrar.
  • Reduza a audiência: use listas fechadas ou álbuns partilhados com familiares, não feeds públicos.
  • Pergunte quando for possível: envolva a criança conforme ela cresce e entende o impacto.
  • Preserve espaços sem ecrã: incentive momentos onde a infância acontece fora das câmaras.

Não se trata de rejeitar o digital: ele trouxe benefícios reais — ligação a familiares distantes, registos afetivos e ferramentas educativas. Trata‑se de equilibrar. De não transformar cada fase do crescimento numa peça de conteúdo para recolher aprovação alheia.

Há, também, uma dimensão ética: uma criança não pode dar consentimento informado aos cinco anos. Ao construir a sua identidade pública sem o seu aval, corremos o risco de hipotecar escolhas futuras.

No fundo, o que celebramos quando postamos imagens no Dia da Criança? A pequenez dela, ou a versão conveniente que cabe no nosso feed? Não tenho a resposta definitiva, mas sei qual gesto me parece mais prudente hoje.

Talvez o presente mais generoso que possamos oferecer seja um pouco de anonimato: permitir que as crianças vivam momentos sem plateia, que cresçam com o direito a escolher como e quando serão vistas. No Dia 1 de junho — e nos outros 364 dias do ano — poupar a publicação pode ser um ato de cuidado.

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