A noção de que agressores sexuais são figuras estranhas, afastadas da nossa convivência, já não se sustenta: investigações e relatos mostram que quem abusa costuma estar perto — um vizinho, um familiar, alguém em quem confiamos. Essa realidade tem consequências diretas para a forma como acolhemos denúncias, protegemos vítimas e responsabilizamos suspeitos.
Ao imaginarmos um crime sexual grave, é natural que surja uma imagem de perversidade fora do comum. Mas quando essa imagem não coincide com a pessoa que conhecemos — o pai, o tio, o colega — muitas pessoas tendem a não acreditar na acusação. Essa discrepância psicológica alimenta a descrença e, na prática, deixa sobreviventes isolados.
Vários casos notórios ilustram o padrão: os autores de abusos aparecem em profissões comuns e mantêm laços sociais normais. Entre os homens implicados no processo que abalou a família Pelicot havia desde profissionais de saúde a agentes de segurança, comerciantes e trabalhadores administrativos. Muitos viviam na mesma comunidade das vítimas, tinham relacionamentos estáveis e rotinas aparentemente banais.
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Por que isso importa hoje
Quando a sociedade insiste em imaginar o agressor como um ser marginal, repete um erro que protege culpados e silencia quem denuncia. A recusa em acreditar pode prejudicar investigações, afastar testemunhas e ampliar o sofrimento das vítimas. Ouvir com atenção e garantir pistas de proteção são medidas urgentes para quebrar esse ciclo.
O efeito prático é simples e cruel: em muitos episódios, a defesa automática do alegado agressor — motivada por incredulidade ou por receio de manchar reputações — transforma-se numa barreira que impede justiça e recuperação. Resultado: vítimas que se calam por medo de não serem levadas a sério.
Como apoiar e não silenciar
Para mudar essa dinâmica é preciso ação concreta. Isso inclui acolhimento profissional às denúncias, rotinas de investigação que não presumam a culpabilidade do denunciante e políticas públicas que priorizem a segurança de quem relata abuso. Também é essencial que familiares e amigos façam perguntas cuidadosas em vez de reações defensivas automáticas.
- Serviços de apoio a vítimas (contactos):
- Quebrar o Silêncio — apoio especializado para homens e rapazes vítimas de violência sexual: 910 846 589, apoio@quebrarosilencio.pt
- Associação de Mulheres Contra a Violência (AMCV): 213 802 165, ca@amcv.org.pt
- Emancipação, Igualdade e Recuperação (EIR UMAR): 914 736 078, eir.centro@gmail.com
Não se trata de demonizar a comunidade — trata-se de reconhecer que a proximidade entre agressor e vítima é frequente e exige respostas diferentes das que aplicamos a crimes cometidos por estranhos. Procedimentos de denúncia acessíveis, proteção às testemunhas e serviços psicológicos são passos concretos que podem reduzir a dimensão do problema.
Numa escala individual, a mudança começa por tomar a denúncia a sério: ouvir sem prejulgamentos, encaminhar para apoio especializado e permitir que a investigação siga o seu curso sem pressões externas. Na esfera pública, requer investimento em formação para profissionais que atendem vítimas e campanhas que desmontem mitos sobre quem pode ser agressor.
Perspetiva
Continuar a associar abuso sexual apenas a figuras grotescas afasta-nos da realidade e fragiliza as defesas coletivas. Reconhecer que o agressor pode ser alguém com aparência comum não significa eliminar o princípio da presunção de inocência, mas sim garantir que as denúncias sejam tratadas com seriedade e que as vítimas encontrem apoio.
Ângelo Fernandes é fundador da Quebrar o Silêncio, a associação portuguesa que presta apoio especializado a homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual. É também autor do livro “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?” e do romance “Neblina”.












