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Na edição deste ano da centenária Feira de Maio, em Azambuja, a cidade prestou homenagem a Daniel Silva, um campino cujo corpo e rotina foram marcadamente alterados após um acidente grave em 2022. A cerimónia destacou mais do que reconhecimento: colocou em evidência a relação entre tradição rural, recuperação e solidariedade local.
Uma homenagem carregada de sentimento
O tributo aconteceu entre os Paços do Concelho, a Igreja Matriz e o Pelourinho, com centenas de pessoas a acompanhar a cena. Em vez do cavaleiro em movimento, quem ficou sob os olhares foi um homem sentado numa charrete, rosto marcado pelas dificuldades, mas presente no centro da festa.
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Para a comunidade, a homenagem teve duplo valor: reconhecer uma vida dedicada ao trabalho do campo e lembrar o impacto que um único acidente pode ter numa profissão de risco e em identidades locais.
Trajetória de um campino
Natural de Grândola, Daniel viveu várias fases profissionais antes de se fixar na vida rural: trabalhou na construção e chegou a ser talhante. A atração pela campinagem, contudo, nunca o largou. Foi através de um mentor — Mário Gordo — e do seu primeiro cavalo, baptizado Nilo, que consolidou o ofício.
Com o tempo aprendeu ofícios diversos do campo: colocar brincos em bezerros ariscados, orientar o gado e, posteriormente, trabalhar com touros em corridas. Passagens por ganadarias como a Lampreia e pela herdade de Monte Novo, onde foi maioral, compõem um currículo prático e de respeito pela tradição.
- Idade: 48 anos (atual)
- Acidente: queda nas festas de Coruche, em agosto de 2022
- Consequência: internamento prolongado, incluindo um mês em coma
- Profissão: campino com experiência como maioral em diferentes ganadarias
- Cavalo: Nilo — símbolo da sua ligação ao campo
O presente e o que está em jogo
Hoje, impossibilitado de montar, Daniel guarda a aspiração de, um dia, voltar a cavalgar. Essa esperança vira muitas vezes foco de conversas sobre reabilitação, apoio social e proteção de quem trabalha com animais e no espaço rural. A visibilidade obtida pela homenagem pode traduzir-se em maior atenção pública às necessidades desses trabalhadores.
Para além do gesto simbólico, a cerimónia serviu como lembrete: tradições como a campinagem dependem de pessoas que arriscam física e culturalmente a sua integridade; reconhecer esses profissionais é também reconhecer a vulnerabilidade e a necessidade de estruturas de apoio mais robustas.
Numa aldeia grande como Azambuja, o gesto público reforça laços e abre espaço para conversas sobre acessibilidade, cuidados de saúde e formas de preservar saberes locais sem descontar o bem-estar de quem os pratica.
O caso de Daniel ilustra duas coisas: a resiliência individual e a importância do coletivo. A Feira de Maio acabou por ser, neste ano, um momento em que a tradição abraçou a causa pessoal de um campino e fez da lembrança um apelo silencioso à ação.












