Mostrar resumo Ocultar resumo
Um aumento recente de ataques de lobos nas serras do Marão e do Alvão tem deixado produtores rurais do norte sob tensão e forçado o Governo a rever compensações. A escalada — com episódios durante o dia e animais mortos próximos de aldeias — coloca em confronto proteção da espécie e segurança económica e ambiental das comunidades locais.
Em Currais, concelho de Vila Real, um casal reportou a perda de uma burra ao amanhecer, num episódio que moradores e dirigentes locais dizem ser mais um sinal de que os confrontos com o **lobo-ibérico** já não se restringem à madrugada. Agricultores afirmam que ataques agora ocorrem também durante o dia, a escassa distância das habitações.
Proprietários locais detalham rotina de recolha noturna dos animais e relatam o choque de encontrar gado morto num terreno a poucos metros da aldeia. Além da dor pela perda do animal, há preocupação com a segurança de vizinhos mais velhos que circulam cedo pela zona.
eclipse solar total de 1999 completa 27 anos: último antes do novo milénio
sushi: 10 peças do menu com mais calorias que você não espera
Incidentes recentes e impacto
Além do caso em Currais, foram reportados outros episódios nas redondezas: na aldeia vizinha da Foz, proprietários atribuem a perda de dois póneis a um ataque; em Duas Igrejas, no concelho de Miranda do Douro, uma exploração declarou a morte de 46 ovelhas numa única ação.
Pastores do Planalto Mirandês descreveram, no final de outubro de 2025, a sequência de ataques como “uma calamidade” para quem depende do pastoreio como fonte de rendimento e de controlo do combustível vegetal nas encostas.
Productores e associações locais apontam ainda para uma consequência indireta: o pastoreio atua como forma de gestão do mato e redução do risco de incêndios. Quando animais deixam de pastar livremente por insegurança, aumenta o combustível disponível nas serras.
Reivindicações dos criadores
Representantes da AGRITAD pedem mudanças estruturais nas políticas de apoio. A proposta central passa por um esquema de compensação diferenciado, que reconheça custos extras quando os animais são mantidos em segurança — por exemplo, custos com feno, ração concentrada ou instalações reforçadas.
Segundo os agricultores, apoio específico a áreas com presença estável de alcateias permitiria aos criadores decidir se mantêm animais no monte ou os recolhem, reduzindo perdas e aliviando a tensão social.
| Espécie | Variação das indemnizações |
|---|---|
| Caprinos | +227% |
| Equídeos | +160% |
| Ovinos | +130% |
| Bovinos | +97% |
Em dezembro de 2025, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciou que o Governo duplicou o montante das indemnizações relativas a ataques, com efeitos retroativos desde o início do ano, no âmbito do **Programa Alcateia**. As alterações tiveram aumento percentual diferente por tipo de gado (ver tabela).
As entidades oficiais já começaram a deslocar equipas para averiguações e a validar pedidos de indemnização, mas produtores dizem que o pagamento nem sempre compensa perdas de trabalho, afeto e função dos animais em explorações de pequena escala.
Regulação e conservação
O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (**ICNF**) mantém o estatuto do **lobo-ibérico** como espécie “em perigo” em Portugal, o que impõe medidas de proteção e programas de apoio aos criadores — desde indemnizações a projetos com cães de guarda autóctones e outras ações de mitigação.
Em 2 de junho, a ministra informou que um novo decreto-lei, elaborado em articulação com o Ministério da Agricultura, será submetido a Bruxelas e deve ser entregue até setembro. O documento pretende reforçar a proteção legal da espécie, mas também abrir caminhos para soluções práticas junto das comunidades afetadas.
O desafio é equilibrar a conservação com a sobrevivência económica das explorações familiares e a segurança pública. Sem medidas específicas e adaptadas às realidades locais, produtores temem um agravamento do conflito e a perda de atividades essenciais ao controlo do território.
- Medidas pedidas pelos agricultores: majorações por cabeça nas zonas de risco, apoio à compra de feno e rações, incentivos para instalações seguras e programas de prevenção localizados.
- Medidas já existentes: indemnizações, projetos de cães de gado e ações de formação para pastoreio protegido.
- Próximos passos: entrega do decreto-lei a Bruxelas e implementação de ajustes no **Programa Alcateia**.
À medida que o Governo avança com reformulações legais e financeiras, a discussão tende a manter-se no centro das prioridades das comunidades montanhosas. Para além do valor económico imediato, está em jogo a capacidade dessas regiões de gerir combustíveis, preservar modos de vida e conciliar proteção da natureza com atividades humanas.












