Governo financia eucaliptais: ambientalistas acusam contradição diante dos incêndios na Europa

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Um movimento cívico acusa o Governo de usar verbas públicas para apoiar plantações de eucalipto num momento em que os riscos de incêndio e os impactos climáticos ganham maior intensidade na região. A controvérsia gira em torno de alterações num programa florestal e do possível reforço de apoios a monoculturas que críticos dizem aumentar a vulnerabilidade do território.

Na quarta-feira, a associação Floresta do Futuro divulgou um comunicado em que questiona a recente alteração das regras do programa Floresta Ativa e a forma como o Fundo Ambiental poderá passar a financiar povoamentos de eucalipto. O grupo afirma que, com as mudanças, espécies de rápido crescimento terão acesso a apoios públicos que, na prática, favorecem plantações comerciais.

O anúncio oficial e a resposta do movimento

No final do mês passado, o secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, informou que o programa Floresta Ativa seria relançado com uma dotação de cerca de quatro milhões de euros e que as regras permitirão a candidatura de todas as espécies, incluindo o eucalipto, com valores ajustados à natureza das intervenções.

Eucaliptal em proximidade de habitação com risco elevado de incêndio
Plantações de eucalipto próximas de zonas habitadas aumentam vulnerabilidade a incêndios.

A Floresta do Futuro questiona que essa flexibilidade possibilite pagamentos de até 800 euros por hectare a eucaliptais, enquanto quem tem investido em espécies autóctones enfrentaria dificuldades para recuperar despesas de gestão de combustível. Para o movimento, a medida pode traduzir-se em incentivo direto às monoculturas ligadas à indústria da pasta de papel.

Segundo a plataforma, há ainda um problema de legalidade: muitas áreas com eucalipto estariam fora das distâncias mínimas previstas por lei, próximas de habitações, estradas e linhas de água. A organização liga essa realidade à maior frequência e intensidade de incêndios observada na Península Ibérica e no Mediterrâneo.

O que mudou, na prática

  • Relançamento do programa Floresta Ativa com cerca de €4 milhões.
  • Abertura de candidaturas para todas as espécies florestais, com valores diferenciados conforme o tipo de intervenção.
  • Possibilidade, segundo críticos, de pagamentos públicos de até 800 euros por hectare a povoamentos de eucalipto.
  • Reações de movimentos cívicos que denunciam apoio a plantações potencialmente ilegais e a expansão de monoculturas.

As alegações da Floresta do Futuro colocam em destaque um ponto prático para os cidadãos: subsídios públicos que se destinem a limpar ou gerir terrenos podem alterar a distribuição de plantações no país, com efeitos diretos na paisagem e na segurança de áreas habitadas.

Contexto mais amplo

Especialistas e estudos sobre gestão do território costumam alertar para a relação entre tipos de coberto vegetal, densidade de povoamentos e comportamento do fogo. O eucalipto é frequentemente apontado, por alguns investigadores, como uma espécie com altos níveis de combustibilidade quando comparada com muitas autóctones — argumento invocado pelos críticos das novas regras.

Ao mesmo tempo, a discussão atravessa questões econômicas: a fileira do eucalipto abastece a indústria de pasta e papel e tem peso local em empregos e rendimentos, o que complica decisões de política pública que procuram conciliar proteção contra incêndios, conservação de biodiversidade e interesses produtivos.

Até ao momento da publicação, o Governo não tinha divulgado uma nova resposta pública às críticas feitas pela Floresta do Futuro além do anúncio técnico do relançamento do programa. A falta de diálogo público visível é outro ponto de contestação levantado pelos movimentos que pedem maior transparência na aplicação das verbas.

O tema interessa diretamente a proprietários rurais, municípios e moradores em zonas periurbanas: decisões sobre que espécies serão prioritárias nos apoios públicos podem alterar a probabilidade de fogos próximos de habitações e infraestruturas e influenciar a gestão de recursos hídricos.

Seguiremos a evolução do dossier, incluindo eventuais esclarecimentos oficiais sobre critérios de elegibilidade e condicionantes legais para pagamentos a povoamentos que possam estar em situação irregular.

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