Boinas verdes mantêm união e histórias vivas em Tancos

A quarta edição da Romaria Nacional em honra de São Miguel Arcanjo reuniu em Vila Nova da Barquinha paraquedistas de diferentes idades e patentes, numa cerimónia que reforça laços militares e preserva recordações de combates que atravessam gerações. O encontro, marcado por reencontros e memória partilhada, revela por que este tipo de manifestações continua a ter significado hoje para veteranos, famílias e comunidades locais.

O andor de São Miguel Arcanjo chegou ao Cais Miguel Pombeiro vindo de Tancos e foi recebido por antigos militares, paraquedistas em serviço, familiares e convidados oriundos de várias regiões do país. Entre boinas verdes e abraços demorados, a hierarquia tornou-se secundária: prevaleceram histórias de vida, rituais de fraternidade e lembranças que persistem décadas após o fim do serviço activo.

Memória pessoal e laços de irmandade

Entre os presentes estava Jorge dos Anjos Martins, 87 anos, que continua a identificar-se como paraquedista. Formado em 1961, serviu durante 28 anos e traz consigo recordações da Guerra do Ultramar — algumas fáceis de partilhar, outras que prefere não revisitar em detalhe.

Os saltos no teatro de operações ficaram gravados na sua memória: o primeiro em Luanda; o segundo, na Serra da Canda, associado à perda de um amigo muito próximo. Prefere não falar abertamente do episódio, mas conserva com nitidez os afectos forjados no serviço. Em vez de reviver traumas, insiste na importância da camaradagem que marcou a sua carreira.

Ao longo da vida militar, Jorge ponderou abandonar a tropa, mas acabou por continuar — participou em diversos cursos de paraquedismo, recebeu distinções e cumpriu o juramento de fidelidade. Recorda também o último salto: partiu da vertical da Capela de Tancos em direcção ao Arrepiado e, num gesto de confiança no próprio domínio do ar, decidiu “brincar” durante a descida — uma brincadeira que terminou com um pé partido.

  • Evento: 4.ª Romaria Nacional em honra de São Miguel Arcanjo
  • Local: Cais Miguel Pombeiro, Vila Nova da Barquinha
  • Origem do andor: Tancos
  • Público: paraquedistas activos e veteranos, familiares e convidados de diversas regiões
  • Temas em destaque: memória militar, reencontros intergeracionais, preservação de tradições

Mais do que uma cerimónia religiosa, a romaria funciona como um ponto de encontro que possibilita a transmissão oral de experiências e assegura redes de apoio informais entre antigos militares. Para os mais novos, é também uma oportunidade de ouvir relatos em primeira mão e compreender melhor o legado das unidades paraquedistas.

Ao regressarem às origens do ritual, os participantes reforçam uma identidade comum e mantêm viva uma narrativa coletiva que, segundo os presentes, “faz sentido” para quem viveu o serviço militar. Para a comunidade local, eventos assim têm impacto social e cultural: atraem visitantes, evocam memória histórica e mantêm viva a ligação entre civis e forças armadas.

Num cenário em que as memórias de guerra tendem a perder voz com o passar do tempo, encontros como esta romaria servem para manter testemunhos activos — não apenas como lembrança, mas como elemento de coesão social entre gerações.

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