Comemorar 41 anos de Liberdade, é um ato de dignidade, que assume, e hoje mais do que nunca, o maior significado para o Povo Português. O dia em que os capitães cansados da guerra resgataram Portugal, fazendo emergir da madrugada a luz, para que pudéssemos nas ruas construir o dia.

E é precisamente esse dia, esse Abril, um projeto, essa promessa, essa vontade de fazer futuro que, 41 anos percorridos, importa, no seu sentido mais profundo, mais generoso, mais libertador, importa reencontrar.

Lembrar Abril, comemorar Abril, não é uma obrigação que nos imponha um qualquer calendário institucional, nem fazemos por mera tradição. Não comemoramos Abril apenas porque sim, porque tem que ser, ou porque assim alguém o determinou.

Comemoramos porque acreditamos, porque sentimos, porque é urgente. Depositámos neste projeto a alegria, o nosso entusiasmo, o melhor da nossa generosidade e demos largas a um genuíno e sincero sentimento de solidariedade coletiva.

É precisamente desse Abril e deste país como presente e sobretudo futuro concreto que importa refletir. Que foram estes 41 anos de liberdade e de democracia? A incessante busca dos melhores caminhos para a edificação de uma sociedade mais justa, equilibrada, solidária e participativa.

Para trás ficaram a ditadura, a censura, uma guerra ilegítima e injustificada, o atraso cultural e económico. Com Abril estava um País que ansiava pela Paz, pela fraternidade, pela construção de uma sociedade mais justa e mais solidária. Com Abril estava uma Constituição traçando os alicerces de uma sociedade democrática e progressista. Com Abril estava o Poder Local Democrático, garantindo o poder mais próximo dos cidadãos. Com Abril estava a liberdade, o sonho da esperança, estava o Portugal democrático.

Mas esta democracia que hoje vivemos está doente, arrisca-se a ser um território fechado, estéril e desmotivador. Passados 41 anos dessa data gloriosa vivemos atualmente semelhanças com o que existia antes do 25 de Abril. Um dos mais elementares objetivos do 25 de Abril era a conquista da igualdade, não apenas o direito à igualdade mas também a igualdade de direitos de todos os cidadãos. Determinou que este País não era só para alguns mas para todos.

Passados 41 anos continuamos a questionar o porquê de estarmos tão longe de garantir essa igualdade. Portugal é hoje dos países da União Europeia onde é mais distante o fosso entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres, existem 2 milhões de pobres e mais de 1 milhão de desempregados.

Portugal é um País em que a riqueza é cada vez mais de meia dúzia, onde as empresas se vão, a agricultura não se vê, a saúde e a educação são acessíveis só para quem pode pagar. Para além das liberdades cívicas, nem sempre a construção da democracia tem privilegiado o desenvolvimento social, cultural e económico.

Temos, portanto, o direito e o dever de refletir sobre o Abril incumprido em cada habitação degradada ou em falta, em cada desempregado, em cada reformado, em cada salário injusto, em cada jovem sem acesso ao ensino superior, em cada escola recusada, em cada atentado ao ambiente.

Mas é preciso refletir também no que tínhamos antes e no que temos agora, no imenso trabalho que foi realizado a nível local, na efetiva melhoria das condições de vida. O papel de destaque que o Poder Local tem desempenhado ao longo destes anos é, sem dúvida, uma das mais significativas expressões de Abril.

Mais poderia ter sido feito? Cabe a cada um de nós julgar o que foi e o que será, daqui para o futuro, o legado de Abril. Será, talvez, esta possibilidade de intervenção crítica, de discussão, de participação, de construção de um futuro à dimensão dos nossos desejos. Por isso, estas comemorações assumem, mais uma vez, um interesse renovado, pela necessidade de reivindicarmos sempre as promessas de desenvolvimento que Abril nos trouxe e uma vida melhor para todos.

 

Num momento em que o desemprego alastra e os trabalhadores, no sector público e privado, veem crescer as ameaças aos seus direitos e à segurança no emprego, assiste-se ainda à diminuição dos salários reais e à perda de poder de compra, acompanhados do aumento do custo de vida e das comparticipações sociais.

 

Comemorar Abril é comemorar Maio, mês do trabalhador, cada vez mais esquecido numa sociedade em que o trabalhador conta como um número e não como ser humano, como parte integrante do desenvolvimento como Abril projetou.

 

A situação das famílias, dos trabalhadores, reformados e pensionistas, dos jovens estudantes e dos jovens que procuram o 1º emprego ou sujeitos a uma forte precariedade, faz com que relacionemos o 25 de Abril ao 1º de Maio e então façamos destas datas jornadas de luta para exigir o cumprimento da esperança e do sonho.

 

41 anos de Abril, tanto caminho fizemos nestes anos de liberdade! Mas muito mais temos para fazer. A construção de uma sociedade mais solidária, mais justa, mais fraterna, viva de paz e de amizade entre os povos. Abril, está vivo no descontentamento dos jovens que reivindicam um ensino gratuito e de qualidade. Está vivo na ação dos homens e mulheres que continuam a acreditar que é possível construir uma sociedade mais justa e solidária.

 

Vale a pena acreditar, vale a pena agir. Uma outra política é possível! Viva o 25 de Abril!

 

 

 

Álvaro Saraiva

Dirigente nacional de “Os Verdes” (do coletivo regional de Setúbal) e membro da comissão executiva nacional do PEV

 

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