Desde novembro de 2024, Portugal assiste a uma procura acelerada por fármacos injetáveis que promovem perda de peso — medicamentos que exigem receita médica e, por enquanto, não são comparticipados. O assunto tornou-se urgente porque já traduz despesas diárias elevadas e coloca questões sobre acesso, prioridades do Estado e uso além de indicações clínicas.
Os dados mais recentes mostram um consumo que não pára de crescer: só neste ano, a venda média diária ultrapassa as 2 300 embalagens, com um gasto aproximado de 613 mil euros por dia. No ano anterior foram adquiridas mais de meio milhão de caixas e o facto de dois princípios activos concentrarem 130 milhões de euros de despesa confirma que a adesão a estes tratamentos está a disparar.
Para contextualizar: em Portugal cerca de 15,9% da população tem obesidade, um problema que a Organização Mundial da Saúde descreve como a pandemia do século XXI. A dimensão do fenómeno torna qualquer proposta de comparticipação farmacêutica complexa e custosa. Segundo estimativas do Infarmed, cobrir 90% dos custos para cerca de 170 mil pessoas implicaria um desembolso anual superior a 900 milhões de euros — perto de metade do que o Estado gasta em medicamentos ao ano.
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O cenário levanta dois nós cruciais: quem terá, na prática, acesso a estas terapias hoje — e até que ponto os medicamentos estão a ser usados fora da indicação para obesidade, por pessoas que procuram apenas perder peso?
- Chegada ao mercado: novembro de 2024.
- Vendas médias diárias (este ano): >2 300 embalagens.
- Despesa média diária: ~613 000 euros.
- Vendas em 2024: >500 000 embalagens.
- Despesa em 2024 (duas substâncias): 130 milhões de euros.
- Prevalência de obesidade em Portugal: 15,9% da população.
- Custo estimado de comparticipação (90% para 170 mil pessoas): >900 milhões de euros/ano (Infarmed).
Há vários factores que explicam a expansão do consumo: eficácia reportada nas consultas, visibilidade mediática, oferta em consultas privadas e o facto de estes fármacos representarem uma alternativa que, para muitas pessoas, parece mais rápida do que intervenções comportamentais ou programas públicos de saúde.
Mas também surgem preocupações práticas e éticas. Do ponto de vista do Serviço Nacional de Saúde, a grande pergunta é se é sustentável priorizar a comparticipação de tratamentos onerosos quando a prevenção e a gestão multidisciplinar da obesidade continuam subfinanciadas. Do ponto de vista clínico, médicos e autoridades enfrentam o desafio de garantir que as prescrições respeitem as indicações e não alimentem um consumo de fim estético por parte de pessoas sem diagnóstico de obesidade.
Em conversa com Gina Pereira, autora da reportagem e editora da secção de Sociedade, destacam-se dois pontos: primeiro, que a procura acelerou sobretudo depois da chegada das terapias ao mercado nacional; segundo, que a regulação e a monitorização das prescrições serão cruciais para evitar usos indevidos e desigualdades no acesso.
O debate público tende a polarizar-se entre soluções individuais — o acesso a medicamentos privados — e políticas públicas de saúde que trabalhem prevenção, educação alimentar e cuidados integrados. O desafio para as autoridades será decidir se estas terapias entram no leque de benefícios do Estado, como isso será financiado e quais critérios serão aplicados para priorizar quem deve receber tratamento.
Para leitores que procuram um resumo rápido, as informações essenciais estão no quadro acima; para quem quer compreender impactos sociais e económicos a médio prazo, as questões são mais profundas: sustentabilidade orçamental, equidade no acesso e fiscalização das prescrições.
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