Mostrar resumo Ocultar resumo
O grupo chinês Chint iniciou a fase de consulta pública para a avaliação ambiental de um conjunto de projetos no Baixo Alentejo que, se aprovados, acrescentariam uma capacidade renovável muito significativa à rede elétrica nacional — e colocam questões imediatas sobre uso do solo e conservação da avifauna local. A iniciativa, designada como Cluster Alqueva, reúne centrais solares com baterias e parques eólicos entre os concelhos de Portel e Vidigueira.
O documento entregue para definição de âmbito descreve três centrais de geração híbrida (solar + armazenamento) e uma central fotovoltaica combinada com energia eólica, totalizando aproximadamente 1.300 MW de potência instalada nas unidades solares. Esta fase é a primeira do processo de Impacte Ambiental e está aberta a observações públicas.
Segundo a proposta, o lote faz parte da capacidade que a Chint contratou com a operadora da rede de transporte. Na lista mais recente com a REN, a empresa aparece com 2.520 MW acordados, distribuídos por oito projetos no mesmo sub-região — um volume que representa mais de 20% da capacidade global incluída nessa seleção.
1300 MW solar com baterias e eólica em Portel e Vidigueira: grupo chinês pede licença no Alqueva
Sebastião Bugalho, Carlos Moedas e Pedro Duarte integram a nova equipa de vice-presidências do PSD
O que prevê o projeto
Os números principais das centrais já indicados no pedido de âmbito são:
- São Gião: 563 MW (solar);
- Tapada Branca: 580,5 MW (solar);
- Monte Santos: 111 MW (solar);
- Dois parques eólicos com 7 aerogeradores no total e cerca de 50 MW de capacidade instalada.
O armazenamento em baterias será distribuído pelas três centrais solares. O processo refere a instalação de 358 unidades de armazenamento, com uma potência instalada global de 895 MW e uma capacidade total de armazenamento reportada de 1.790 (unidades do documento).
Também estão previstos quase dois milhões de módulos fotovoltaicos, maioritariamente nas centrais de São Gião e Tapada Branca. Para escoar a produção, o plano incorpora a construção de três linhas de muito alta tensão com comprimentos entre 7,4 km e 8,9 km.
Impactes ambientais e mitigação
O território afetado situa-se na região hidrográfica do Guadiana. Embora não exista sobreposição direta com áreas do sistema nacional de áreas classificadas, a envolvente inclui zonas consideradas críticas ou muito críticas para aves de rapina e outras espécies sensíveis — um ponto que deverá pesar no estudo de impacte ambiental.
A vegetação identificada no levantamento preliminar inclui matas mediterrânicas e montados de azinho e sobro, intercalados com terrenos agrícolas. O documento não quantifica ainda o número de árvores que poderão ser removidas, nem especifica eventuais cortes de espécies protegidas, cuja intervenção depende de pareceres do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
Para limitar efeitos, a proposta aponta medidas como o ajustamento do layout das infraestruturas, um plano de recuperação das áreas intervencionadas e um mecanismo de compensação pela desflorestação. Também está prevista a vedação das parcelas, com estruturas metálicas de dois metros — as estimativas preliminares indicam comprimentos de cerca de 12 km, 27,7 km e ~30 km para os três conjuntos.
Contexto e próximas etapas
A Chint Solar atua na Europa desde 2016 e já gere centrais fotovoltaicas em Portugal, nomeadamente em Albergaria-a-Velha e Pias. O conjunto em análise terá sido desenvolvido desde 2019, mas o valor do investimento ainda não foi divulgado.
Se a proposta de definição de âmbito for aprovada, o promotor deverá submeter o Estudo de Impacte Ambiental para avaliação técnica e decisão administrativa. Até lá, a consulta pública permite que cidadãos, autarquias e organizações ambientais apresentem comentários e preocupações que poderão influenciar condicionantes do projeto.
As principais implicações públicas e técnicas podem ser sintetizadas assim:
- Ganho energético: expansão relevante de capacidade renovável e maior potencial de armazenamento, úteis para estabilizar a rede.
- Uso do solo: transformação de áreas rurais e agrícolas com impactos paisagísticos e sobre práticas locais.
- Biodiversidade: necessidade de avaliar riscos para aves de rapina e habitats de montado; mitigação e compensação serão determinantes.
- Infraestrutura: construção de linhas de alta tensão e vedações extensas com efeitos temporários e permanentes no território.
Em suma, o processo coloca em confronto interesses de aceleração da descarbonização elétrica e a preservação de ecossistemas rurais. A consulta pública em curso é o momento para clarificar dúvidas técnicas, exigir salvaguardas ambientais e acompanhar prazos até à decisão final.












