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Aos 19 anos, uma artista nascida no sul do Brasil prepara duas apresentações internacionais — uma no Luxemburgo e outra no Carrousel du Louvre, em Paris — depois de um reencontro recente com a pintura que começou há menos de um ano. O que torna a história relevante hoje é a combinação entre mobilidade cultural, autoprodução artística e iniciativas locais em Braga que aproximam a comunidade da criação visual.
Victoria Félix, conhecida como Vick, voltou à pintura nove meses atrás após um afastamento de cerca de quatro anos. O recomeço começou com um gesto simples: um risco de lápis que a levou a explorar telas, texturas e cores intensas; hoje trabalha sobretudo com tinta acrílica, gesso e materiais que criam relevo.
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Da infância ao recomeço
Natural de Bento Gonçalves (Rio Grande do Sul), Vick vive em Braga desde os dez anos, quando a família mudou-se para Portugal em busca de segurança e novas oportunidades de ensino. A adaptação escolar incluiu estranhamentos iniciais ao sotaque e à forma de falar dos professores, mas a curiosidade dos colegas facilitou a integração.

A ligação às artes remonta à infância: trabalhos manuais, desenhos e programas televisivos inspiradores. Apesar de não ter formação técnica em pintura — aprendeu de forma autodidata, recorrendo a prática, vídeos e experimentação — acabou por escolher o curso profissional de design gráfico, que lhe deu ferramentas organizacionais e teóricas que aplica hoje na pintura.
Processo criativo e bloqueio
O afastamento das artes coincidiu com um período académico em que a criatividade lhe parecia condicionada por métodos demasiado orientados. Ao entrar no curso, passou a trabalhar mais no computador e a pintar apenas esporadicamente. Quando retomou, fez questão de impor o próprio ritmo e busca agora na arte abstrata liberdade para traduzir pensamentos e emoções.
As telas da sua primeira série, Fragmentos, somam 12 obras — incluindo três dípticos — e dialogam com referências pessoais, como o filme “Alice no País das Maravilhas”. A artista usa títulos e composições para explorar temas de identidade; em “Who Are You?”, por exemplo, recorre à passagem entre Alice e a Lagarta para refletir sobre a dificuldade de autoconhecimento.
Exposições internacionais
Dois trabalhos seguem agora para feiras fora de Portugal: Unfiltered Mind será exibida na art3f, em Luxemburgo, entre 2 e 4 de outubro; e I Found Myself integra o Art Shopping, no Carrousel du Louvre, em Paris, de 23 a 25 de outubro. A oportunidade surgiu após o contacto com a curadora Cristina Bernardini, que orientou seleção, logística e estratégias para partilhar custos.
Participar destas plataformas implica custos elevados — inscrições, transporte e logística podem ultrapassar os 3 000 euros — e por isso o apoio da curadora foi determinante para viabilizar as candidaturas e encontrar alternativas de pagamento e bolsas.
Como isso afeta a artista e a comunidade
Para Vick, a visibilidade internacional é um passo concreto numa carreira em construção: acrescenta legitimidade, abre redes e contraria a ideia, comum entre colegas, de que não é possível viver da pintura. Ao mesmo tempo, a artista reinveste parte dos rendimentos na compra de materiais e na produção, mantendo uma atividade paralela como designer gráfica freelancer.
- Exposições: art3f (Luxemburgo) — 2 a 4/outubro; Art Shopping (Paris) — 23 a 25/outubro.
- Obras à venda: colecção “Fragmentos” — preços entre 450€ e 890€.
- Custos estimados para exposições internacionais: podem exceder 3 000€ por participação.
- Workshops em Braga (Tinta na Mesa): sessões com preços até 35€; atividades para todos os níveis em cafés e galerias.
Projeto local: Tinta na Mesa
Em maio, Vick lançou o Tinta na Mesa, um ciclo de workshops que acontece em cafés, restaurantes e espaços culturais de Braga. As sessões são destinadas a iniciantes de todas as idades e visam interromper rotinas digitais, oferecendo materiais e orientação para que cada participante leve a sua peça para casa.

O programa de setembro inclui três ações com formatos distintos: personalização de ecobag no Velma Brunch (6 de setembro, 11h–13h), oficina “Fatia & Pinta” na Dama Art Gallery (19 de setembro, 15h) e “Arte & Pizza” no Il Fiume (30 de setembro, 19h20–22h). As inscrições são feitas pelas redes sociais do projeto.
O próximo passo
Além de preparar a presença em feiras internacionais, Vick aceita encomendas, pretende produzir uma nova coleção e procura uma galeria para a sua primeira exposição individual — de preferência em Braga. A artista sublinha que o percurso é gradual: “Pode demorar meses ou anos, mas é preciso persistir”.
No fundo, a história de Victoria Félix reúne temas centrais do momento: jovens criadores que combinam formação técnica e prática autodidata, a importância de redes de apoio — como curadores e produtores culturais — e iniciativas locais que tornam a arte mais acessível. Para Braga, é também um exemplo de como talentos locais podem ganhar palco internacional sem perder o vínculo com a comunidade.











