jovens trocam cidade pelo campo: agricultura reabre portas para empregos

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Enquanto a temporada inaugural do podcast “O Lado B da Terra” chega ao fim, a conversa final expõe uma ideia clara: a agricultura deixou de ser apenas trabalho manual e abre-se como carreira possível e moderna para a juventude. O episódio reuniu a jovem consultora Vera Bonacho e Matilde Antunes, do projeto Be Rural, para mostrar como tecnologia, gestão e propósito estão a redesenhar o campo português — e por que isso interessa hoje a quem está a decidir o futuro profissional.

Do campo familiar à consultoria: um caminho híbrido

Vera Bonacho, 26 anos, cresceu na Golegã e estudou Engenharia Florestal e Agronómica. Hoje trabalha na Consulai, onde combina o conhecimento técnico com a gestão de projetos agropecuários. A sua aposta pessoal é um olival no Ribatejo, implantado numa exploração familiar que tradicionalmente cultivava milho.

Jovem consultora numa exploração de olival a consultar tablet
Da formação em engenharia florestal à gestão de um olival familiar.

A escolha pelo olival não foi apenas emocional: visa reduzir exposição a oscilações de preço e aumentar a resiliência da exploração. A gestão do projecto inclui técnicas modernas, como a aplicação de regimes de rega deficitária e monitorização por sensores, para otimizar água e custos.

Tecnologia no terreno

O relato de Vera destaca que a face contemporânea da agricultura envolve ferramentas que muitos não associam ao campo: drones para monitorização, tratores autônomos e análise de dados para decisões comerciais. Em consultoria, o trabalho passa por elaborar planos de negócio e aconselhar sobre culturas — funções que exigem competências além da produção.

Drone sobre campos com sensores no solo
Tecnologia como drones e sensores a apoiar decisões no terreno.

Be Rural: atrair talentos com propósito e carreira

Matilde Antunes, envolvida no Be Rural, reforça que o propósito é fator decisivo para muitos jovens, mas não basta. Para atrair e reter talento, o setor precisa mostrar caminhos de carreira qualificados, com remuneração e apoio à inovação.

Be Rural procura mudar a narrativa: a agricultura e a floresta são apresentadas como espaços de inovação e empreendedorismo, com potencial económico e impacto ambiental relevante — não meramente atividades tradicionais.

Oportunidades no agroflorestal e perfis procurados
Oportunidade Perfil / Competências Exemplo de aplicação
Gestão de explorações Engenharia agronómica, finanças, planeamento Planos de negócio para culturas rentáveis e sustentáveis
Inovação e tecnologia Data science, IA, robótica Plataformas que agregam dados de sensores e drones para decisões
Conservação de recursos Hidrologia, irrigação eficiente, sustentabilidade Sistemas de rega deficitária e otimização do consumo de água
Comunicação e mercado Marketing, vendas, branding Vender azeite de qualidade e posicionar produtos em cadeias curtas

O que os jovens trazem de novo

Ambas destacam traços recorrentes na nova geração: maior fluidez com tecnologia, disposição para experimentar e menos apego ao “sempre se fez assim”. Isso facilita a adoção de soluções digitais e a integração de dados no processo de decisão agrícola.

Vera sublinha a necessidade de criar uma relação simbiótica entre experiência de campo e competências digitais — juntar o conhecimento prático dos agricultores mais velhos com a capacidade analítica dos mais novos.

  • Competências demandadas: análise de dados, biotecnologia, robótica, desenvolvimento de negócios e comunicação.
  • Benefício social: uma agricultura mais transparente e compreendida pela sociedade.
  • Impacto ambiental: práticas que aumentam eficiência hídrica e resiliência climática.

Implicações para quem está a escolher carreira

Matilde aconselha a olhar para o setor sem preconceitos: não é só para quem quer trabalhar na terra com métodos tradicionais. Há lugares para perfis técnicos, analíticos e criativos. E, sobretudo, existe espaço para impacto real nas grandes questões contemporâneas — alimentação, clima e gestão dos recursos.

Para quem procura um caminho prático, Vera sugere focar na qualidade e na diferenciação: produzir com critérios que valorizem o produto nacional em mercados competitivos.

Visão para 2036

Vera espera que, numa década, o seu projeto esteja consolidado e economicamente sustentável, com expansão controlada e produção de azeite de qualidade. Mais amplamente, deseja ver a profissão de engenheiro-agrónomo mais reconhecida, sem estranheza perante quem escolhe a agricultura como carreira qualificada.

Ambas as intervenientes acreditam que o setor já evoluiu tecnologicamente a passos largos e que isso o coloca entre os mais estratégicos para os próximos anos em Portugal.

O episódio final de “O Lado B da Terra” funciona, assim, como retrato e apelo: a agricultura contemporânea combina tradição com inovação e oferece caminhos reais para quem procura propósito e desenvolvimento profissional. Para leitores e jovens em decisão, a mensagem é clara — vale a pena olhar para o campo com olhos renovados e atenção às competências que o futuro exigirá.

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