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Um crime que segue sem respostas claras há mais de um século volta a ganhar atenção com a estreia na Netflix da quarta temporada da antologia de Ryan Murphy e Ian Brennan, lançada em 17 de setembro. A produção reaviva o mistério em torno das mortes de Andrew e Abby Borden e coloca novamente em pauta questões sobre classe, gênero e memória pública.
A série e o ponto de partida
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A temporada, composta por oito episódios já disponíveis na plataforma, toma como fio condutor o famoso caso de Fall River, Massachusetts, ocorrido no fim do século XIX. No centro da narrativa está a figura de Lizzie Borden, interpretada por Ella Beatty, cuja vida familiar e as tensões domésticas são exploradas como motor dramático da história.

Ao lado de Beatty, o elenco reúne nomes conhecidos: Charlie Hunnam assume o papel de Andrew Borden, Rebecca Hall interpreta Abby, e Vicky Krieps dá vida à empregada Bridget Sullivan. Entre escolhas de casting menos previsíveis, destaca-se Sarah Paulson no papel de Aileen Wuornos, que aparece na série como uma personagem fascinada pela trajetória de Lizzie.
O crime e as lacunas do processo
Na manhã de 4 de agosto de 1892, a família Borden acordou para um duplo homicídio que abalaria a comunidade de Fall River. Abby foi encontrada morta num dos quartos; mais de uma hora depois, Andrew foi achado no sofá da sala, ambos atacados por golpes desferidos com um pequeno machado.
Naquele dia estavam em casa apenas Lizzie e a empregada Bridget; a irmã mais velha, Emma, estava ausente e um hóspede havia saído pouco antes. Embora Lizzie tenha chamado Bridget ao encontrar o corpo do pai e ambas tenham negado a presença de intrusos, a jovem passou a ser a principal suspeita.
- Data dos crimes: 4 de agosto de 1892.
- Situação da casa: poucas pessoas presentes; alibis frágeis e dependentes de horários.
- Provas controversas: ausência de manchas de sangue nas roupas de Lizzie, arma não identificada de forma conclusiva.
- Episódios que levantaram suspeitas: tentativa relatada de compra de ácido prússico, destruição de um vestido pela acusada.
- Resultado do julgamento: absolvição de Lizzie em junho de 1893; nenhum outro julgamento subsequente.
Apesar de eventos que alimentaram desconfiança — como relatos de uma tentativa de compra de veneno e a queima de roupas —, faltaram provas materiais que vinculassem com certeza Lizzie aos assassinatos. O julgamento, conduzido por um júri exclusivamente masculino, terminou com a absolvição após curto período de deliberação.
Por que o caso ainda interessa?
Histórias com poucos suspeitos, casas com circulação limitada e desfechos inconclusivos mantêm o apelo do caso Borden. Meios internacionais e críticos destacam a combinação entre um crime violento, o peso das diferenças sociais e as restrições impostas às mulheres no fim do século XIX como razões para a perenidade do fascínio público.

Para a série, essas “zonas cinzentas” são espaço narrativo: a ficção preenche lacunas documentais e propõe motivações e relações que os registos históricos não comprovam. Um exemplo: a adaptação imagina uma intimidade entre Lizzie e Bridget, que funciona aqui como possibilidade dramatúrgica mais do que como afirmação factual.
Ao avançar pela vida de Lizzie além do julgamento, a produção também traça a transformação da suspeita em mito cultural — inclusive mostrando como a antiga casa dos Borden se tornou ponto de peregrinação e até alojamento temático, onde visitantes podem dormir em quartos ligados ao crime.
O que muda com a releitura televisiva
A temporada não se limita a reconstituir o episódio de 1892; busca perceber como esse episódio foi narrado e recontado ao longo de décadas. Ao trazer figuras históricas e referências culturais posteriores, a série sugere que o caso Borden faz parte de um diálogo contínuo sobre violência, exceção e representação.
Do ponto de vista editorial, a releitura incentiva uma revisão crítica: separar o que é fato comprovado do que é especulação dramatizada e entender por que certos mitos persistem.
Quem se aproxima do assunto esperando respostas definitivas continuará frustrado; quem aceitar a série como um esforço de reinterpretação verá uma proposta que amplia o debate sobre justiça, memória e mídia.
Independentemente da simpatia que a dramatização possa gerar por qualquer personagem, é importante lembrar que Lizzie Borden morreu em 1927 sem admitir ter cometido os crimes e que o mistério legal nunca foi resolvido.












