Floresta: três ações urgentes pós-verão para reduzir risco de incêndios

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Os dados provisórios do ICNF até agosto de 2026 mostram um recuo significativo da área ardida, mas também revelam fragilidades que permanecem no território. O desafio imediato é transformar essa janela de oportunidade em medidas permanentes de proteção — porque o resultado do próximo verão começa nas decisões tomadas hoje.

Entre janeiro e agosto deste ano foram contabilizados cerca de 67.130 hectares queimados, uma queda de 73,5% face ao mesmo período de 2025, segundo o Instituto. No entanto, o número de ocorrências subiu para 6.910 incêndios (+6,7%), e 68 grandes fogos concentraram cerca de 82% da área destruída. Em resumo: poucos incêndios continuam a provocar estragos muito extensos.

Esses números pedem cautela. Sem cruzar a informação sobre meteorologia, pontos de ignição e estado das paisagens, seria precipitado declarar que o problema estrutural foi resolvido. A verdadeira avaliação exige análise integrada e contínua.

Prioridades imediatas

Para consolidar ganhos e reduzir riscos futuros, três linhas de ação devem orientar políticas públicas e privadas.

Faixa limpa numa área florestal demonstrando gestão preventiva da paisagem
Limpeza de faixas e intervenção regular reduzem combustível e fragmentam o risco.

  • Continuidade da prevenção — planeamento, manutenção e intervenções regulares na paisagem para reduzir combustível e criar mosaicos menos vulneráveis;
  • Condições económicas para proprietários — incentivos e soluções colectivas que facilitem a intervenção em áreas de pequena propriedade;
  • Valorização da biomassa — transformar sobrantes florestais em energia ou materiais, com regras de sustentabilidade claras e rastreabilidade.

A primeira linha — a que protege diretamente vidas e bens — é gerir a floresta ao longo do ano: silvicultura preventiva, limpeza de faixas e manutenção de lucros interrompidos. Intervenções pontuais na época de risco não substituem um programa contínuo de gestão.

Portugal tem uma rede de proprietários muito fragmentada. Exigir que cada um faça as limpezas sem reduzir custos logísticos e promover cooperação equivale a empurrar a responsabilidade para o vazio. Incentivos que incentivem consórcios, contratos partilhados e recolha agregada dos resíduos são essenciais.

Como tornar a biomassa uma solução fiável

Transformar sobrantes em energia pode reduzir custos de gestão e criar mercado, mas só com critérios rígidos. É necessário garantir respeito ao solo, à biodiversidade e à cadeia de custódia.

Medidas práticas que aumentam a confiança de investidores e operadores:

  • implementar sistemas digitais de rastreabilidade e georreferenciação do feedstock;
  • operacionalizar normas da diretiva europeia EU RED e métricas ESG para comprovar sustentabilidade;
  • estabelecer certificação e auditoria independentes para a biomassa utilizada em centrais energéticas.

Essas ferramentas ajudam a transformar resíduos florestais em um ativo verificável, atraindo financiamento institucional e reduzindo o peso dos custos de transporte e logística para pequenos proprietários.

Para além dos apoios clássicos, o país precisa de instrumentos de mercado: créditos de carbono florestais operacionais, benefícios fiscais direcionados ao transporte de resíduos e mecanismos de pagamento por serviços ambientais que reconheçam hectares efetivamente geridos.

Sem continuidade de ações no terreno e sem criar um quadro económico que torne a gestão atrativa, o esforço preventivo permanecerá fragmentado. Investir hoje na organização logística e na valorização dos materiais é economicamente mais eficiente do que arcar com os custos do combate a incêndios e da reconstrução.

O outono deve ser usado para consolidar práticas, apertar regras de rastreabilidade e alinhar incentivos. Se mantivermos a prevenção como prioridade política e operacional, a floresta terá maiores condições de proteger pessoas, património e atividade económica quando o risco voltar a subir.

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